A Emancipação do Crespo

Era uma vez um menino santomense, que foi adoptado por uma família portuguesa. À primeira vista, o menino parecia feliz e integrado na nova família. Porém, um dia o menino decidiu lavar-se com lixívia por não suportar as piadas do irmão adoptivo mais velho branco e querer ficar branco como os outros membros da sua nova família. Esta história provavelmente causa-lhe choque e à primeira vista parece ser sobre racismo. Mas não. É sobre crise de identidade. Uma crise com a qual muitas pessoas se deparam num certo momento da sua vida.

Será que o cabelo faz parte da identidade de uma pessoa? Como é que o modo como utilizamos o nosso cabelo pode influenciar o nosso estatuto na sociedade?

A Mestre em Desenvolvimento Económico e Social em África, Daena Neto (31 anos), é hoje uma defensora acérrima do “natural”, embora no passado já tenha usado produtos químicos no cabelo. “Até por muita pressão dos meus pares na faculdade. Mas quando me decidi assumir as minhas origens, deixei de o fazer”, afirma orgulhosa. Daena acredita que o cabelo faz parte da identidade das pessoas. “Muitas vezes somos identificados quando nos vêem de costas porque reconhecem o nosso estilo”. Segundo Daena, tendo em conta que existem códigos de convivência e muitas vezes existem regras a seguir, o cabelo influencia sim o estatuto social das pessoas. “Ter o cabelo esticado e/ou com extensões é sinónimo de ter dinheiro para financiar a sua beleza. Usar o cabelo natural infelizmente é prova de falta de cuidado e condições para o tratar, quando hoje sabemos que é completamente o contrário. Gastamos tanto ou mais para manter o dito cabelo "despenteado" como dizem os preconceituosos!”

A escritora nigeriana, Chimamanda Ngozi Adichie, chegou a afirmar numa entrevista que o seu cabelo é político. “Eu sou um pouco fundamentalista quando se trata de cabelo das mulheres negras. O cabelo é cabelo - mas também sobre questões mais amplas: a auto-aceitação, a insegurança e o que o mundo diz que é lindo. Para muitas mulheres negras, a ideia de usar o seu cabelo naturalmente é insuportável”.

Com o objectivo de valorizar a identidade negra, nos anos ‘70, surgiu nos Estados Unidos da América o movimento Black Power. Pela primeira vez na história, começou-se a passar a mensagem que ser negro é lindo, que o cabelo afro é lindo. O black power, que acabou por se tornar o nome de um penteado, marcou o primeiro momento histórico de enaltecimento das raízes negras.

Fundado em 1966 na cidade de Oakland, Califórnia, o Partido dos Panteras Negras é até hoje mundialmente conhecido pela luta política contra o racismo nos Estados Unidos. Entre muitas reivindicações e métodos de luta, as integrantes do grupo são aclamadas por mulheres negras de todo o mundo, que as vêem como referências e inspirações para o movimento feminista negro actual. O black power era o penteado oficial dos Panteras Negras.

Há cerca de 5 anos, o movimento do cabelo natural, que renasceu no continente americano e tem unido mulheres negras de diferentes cantos do mundo, onde a ditadura do cabelo liso ainda domina os padrões de beleza, chegou a São Tomé e Príncipe.

Desde cedo as meninas negras aprendem a negar as suas características, nomeadamente o seu cabelo, o que contribui para a destruição da sua auto-estima. É-lhes incutido que para serem belas têm que ter o cabelo longo e liso, que isso é que as torna femininas, assim como há uma clara pressão para que tenham a pele mais clara possível. Muitas jovens santomenses têm recorrido a cremes para clarearem a pele, tal como há muitos anos acontece em outros países do continente africano.

A jurista Annia Batista de Sousa (27 anos), conta que desde muito pequena que pentear o cabelo era uma guerra. “Mamã, praticamente a correr atrás de mim com um pente e eu fugindo para o mais longe possível. Quase sempre eu tinha que estar a dormir para poderem mexer no meu cabelo pois as dores eram imensas, o meu cabelo era muito grosso, até criaram o hábito de chamá-lo de “lenha”. Consequentemente, uma tia minha que na altura tinha um salão de cabeleireiro, sugeriu que eu desfrisasse o cabelo com químico, pois o mesmo se tornaria mais maleável, o que foi feito desde muito cedo. Estava no 5.° ano, se não me falha a memória”.

As atitudes negativas direccionadas ao cabelo crespo estão tão naturalizadas que as pessoas se sentem muito confortáveis em chamar um cabelo de “lenha”, “palha de aço”, “duro” ou “ruim”, para se referirem ao cabelo mais crespo, daqueles que não formam cachos.

Depois de quase 15 anos a utilizar produtos químicos no cabelo, em Julho 2012, contagiada pela melhor amiga, Annia começou a cuidar do cabelo seguindo uns vídeos no youtube para o seu cabelo crescer forte e saudável. “O meu cabelo cresceu bastante, ficou forte. E comecei a desfrisar cada vez menos, pois usava estilos protectores para diminuir a utilização de químico.” E foi assim que concluiu que se podia cuidar do seu cabelo desfrisado, também o podia fazer no seu estado natural. Foi assim que foi introduzida ao mundo das “nappy”. “Apercebi-me que não havia nada de errado com o meu cabelo, eu apenas não conhecia os produtos adequados e não sabia como cuidar da minha “juba”.

Será que o que está a acontecer hoje é um grande movimento de mulheres negras retornando ao cabelo crespo natural ou é apenas moda? Será um acto político ou uma auto afirmação?

As mulheres entrevistadas pelo STP Digital deixaram claro que para elas não é moda nem se trata de uma afirmação política. “Isto teve mais significado nos EUA, no passado. O novo movimento afro é uma afirmação pessoal. Eu sou o que sou. O meu cabelo é o que é. Ambos temos valor. Ambos somos perfeitos assim como somos”, afirmou uma das entrevistadas que prefere manter anonimato. E acrescentou ainda que o cabelo define sim quem é. “Sou negra, africana e tenho cabelo a condizer. Eu não sou somente o meu cabelo mas ele é sem dúvidas parte de um todo. E este todo sou eu. O meu cabelo é mais uma característica, entre várias outras, que define quem eu sou”.

A jornalista Edlena Barros (30 anos) fala em uma afirmação social, cultural e feminista. Social e cultural porque lhe fizeram assumir a sua origem, sem qualquer preconceito. E como mulher ao assumir-se mais como mulher e dona da sua vontade e do seu corpo, sem ser dependente de padrões estéticos ocidentais que ditam que a mulher bonita tem que ter cabelo liso. Edlena disse que desde que assumiu o seu afro passou a gostar mais de si como mulher, a preocupar-se mais com detalhes como a maquilhagem. “O meu cabelo dita muito o meu estado de espírito diário. Se não conseguir dar ou fazer do meu cabelo algo que goste, escolher a roupa vai ser também difícil”. E conta ainda que as reacções a essa mudança na sua aparência têm sido as mais diversas. “A minha mãe no começo não gostou muito, mas hoje é a minha maior fã e incentivadora e também ela aderiu ao movimento. Muitos perguntam quando é que vou parar com isso e desfrisar o cabelo. Dizem que fica feio desse jeito, que não deveria usar o cabelo assim. Mas também tenho recebido apoio de pessoas que nem conhecia, o que é gratificante”.

Se de um lado estão as defensoras do afro, do outro lado não estão necessariamente as mulheres que ainda alisam o cabelo e aplicam extensões. Acima de tudo está a liberdade. As mulheres emanciparam-se e ganharam o direito de escolher o que julgam ser melhor para elas. Portanto, quem prefere o cabelo liso não deve ser discriminado. A escolha é tão válida e correcta como outra qualquer. Não se pode impor as pessoas o que fazer com o cabelo delas. O cabelo africano é muito versátil e, pode-se dizer que a mulher africana “troca de penteado com a mesma frequência que se troca a fralda de um bebé”.

A estudante Madlene Neves (19 anos) fez a transição quando foi estudar para Marrocos e disse que desde então a sua visão do seu cabelo mudou. Assumir o afro é um desafio e um grande compromisso porque exige cuidados especiais. Madlene adora mimar o seu cabelo. “Eu lavo e hidrato o meu cabelo todas as semanas e antes de cada lavagem faço tratamento de óleos quentes tais como óleo de côco, azeite de oliveira, etc., uso muito o estilo protector, nomeadamente, tranças twists bantu knots.

Enquanto algumas mulheres fizeram uma transição progressiva, outras preferem cortar o mal pela raiz. Foi o caso da técnica administrativa, Ivanilda Luz (27 anos), que resolveu mudar a aparência cortando o cabelo num estilo quase militar. O seu cabelo estava danificado e saturado de tantos químicos. Ivanilda sente-se bem consigo mesma desde que fez a transição. Sente-se ainda mais bela e define beleza como “um estado de espírito individual. Uma mulher precisa estar de bem consigo mesma para se sentir bonita”.

A estudante Yolanda Ramos (19 anos) usou produtos químicos no cabelo durante 7 anos porque lidar com o cabelo liso era mais fácil. Estava farta de tranças e totós, e para além disso, o cabelo liso era considerado "mais bonito" do que o cabelo crespo. Hoje em dia aprendeu a cuidar do seu crespo e fá-lo com primor. “Eu lavo o cabelo todas as semanas com champô e aplico uma máscara hidratante durante 30/60 min. A cada 2 semanas, ao invés da hidratação, faço um tratamento de proteínas. Durante a semana, faço co-wash e finalizo com um activador de cachos ou gel e um pouco de óleo nas pontas. Nos dias seguintes, refresco com água e uso o cabelo num puff. Tenho o cuidado de cortar as pontas 6 em 6 meses. Agora passo mais tempo a cuidar do cabelo, gasto mais dinheiro em produtos. Sim! Engane-se quem pense que ter o cabelo crespo não custa nada! (gargalhas)”. Yolanda confessou ao STP Digital que é uma mulher mais confiante desde que assumiu o seu afro. “Ah! E agora estão sempre a tocar no meu cabelo, o que detesto”!

Quer goste de utilizar o seu cabelo natural, quer prefira utilizar produtos para alisá-lo, o mais importante é que essa escolha venha de si e que não se sinta pressionada a fazer o que outros acham melhor para si, mas sim o que a faz feliz.

Escrito por
Katya Aragão
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