Morar em São Tomé: a vida de uma professora brasileira

Há poucos dias, completou-se um ano em que cheguei a São Tomé e Príncipe, de mala e cuia, para passar alguns anos. Eu e meu marido, companheiro de sempre, com os olhos cheios de espera.

Lembro bem ainda. Após 36 horas entre aviões e aeroportos, a primeira visão da ilha. Despontando, nela ou dela, o majestoso Pico Cão Grande, a me espreitar, enigmático, por entre as nuvens.

Indícios de chuva faziam brilhar magicamente a pequena pista do aeroporto. Era início da noite. Na porta do avião, um mormaço quente e úmido. “Cheguei” pensei. E, tal qual Luís Bernardo, do Equador, prometi: “Vou ser feliz aqui!”

Só não sabia que seria tão rápido!

E assim vem sendo nesses quase doze meses. Andar por essas ruas, algumas apenas vielas. Comprar no mercado. Pechinchar, escolher o tecido mais bonito entre os tantos (como se fosse possível escolher), encontrar as crianças com seus uniformes, lindos, inúmeros, com os sorrisos mais iluminados desse mundo!

Pelas ruas, já até se acostumaram com minha cara pálida e, hoje, muito de vez em quando escuto o “branca ê”. Com o sol do Equador, já estou ficando mesmo é mulata, como já me denominaram por duas vezes.

Os santomenses, o que há de mais bonito nesse país, têm tornado meus dias ainda mais vivos e brilhantes. Têm como característica a solicitude. Um povo, de uma mistura étnica muito grande, que traz na pele e nas faces as marcas de países vários: Angola, Moçambique, Cabo Verde.

E como é bom ouvir o ‘erre’ santomense: vibrante, forte. Um fonema que soa como um grito a ecoar “eu sou dessa terrrrra.”

Os finais de semana são para desbravar lugares paradisíacos, alguns com alguma estrutura, outros ainda preservando “a pureza de um mundo primitivo, inicial, em estado bruto”, com que se deparou Luís Bernardo.

Dançar o ‘Bulawê’, apurar os ouvidos para entender o Crioulo Forro, almoçar como prato do dia o ‘calulu’ com pirão de banana. Sair de casa exclusivamente para almoçar no Parque Popular e comer um ‘vermelho’ com fruta-pão.

Acompanhar os movimentos culturais na CACAU, na UNEAS, no Arquivo Histórico. Os eventos populares no Parque Popular – popular de fato.

Andar. Andar. Transpirar. Sentir a maresia. No espírito do ‘leve leve’ são-tomense, a paciência, virtude não muito comum a mim, tem sido reconquistada... Uma ruga a franzir a testa? É só percorrer cem ou duzentos metros sentar-se sob uma imensa sete copas e ficar ali, vendo e sentindo o mar...

E a vida vai correndo, dia após dia: um trabalho gratificante, lecionando as cadeiras de que gosto nas Licenciaturas da Universidade de São Tomé e Príncipe. Alunos ávidos por conhecimento, em sua grande maioria professores no ensino básico, atentos, educados, a espreita pela palavra, ansiosos por externar o que sabem e internalizar aquilo que eu com eles compartilhar. As horas passam e não as vejo correr quando estou em sala de aula a interagir com esses seres de luz!

Promover a minha língua, a variedade brasileira do Português que me é identitária e cara, e, mais ainda, contrapor a esse ‘erre’ são-tomense tão lindo, o meu ‘erre’ caipira, tão formoso quanto, marca de nosso rico interior, carregado da terra roxa de minha amada Londrina, é uma dádiva divina!

E os dias quentes e húmidos, de um sol revigorante, têm sido assim: cheios de muita paz, proporcionando a mim e meu marido-parceiro-amigo-cúmplice-companheiro, Luciano, experiências inenarráveis, indizíveis, inesquecíveis.

E a vida vai seguindo, assim, no leve leve...

Eliane Vitorino de Moura Oliveira – Programa Leitorado Brasileiro
Professora de Linguística na Universidade de São Tomé e Príncipe.
Doutoranda em Estudos da Linguagem pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade de Londrina.

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