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“Não se trata de segurança mas sim de correr atrás do sonho”

Aonig D’Alva, ou simplesmente Nig (como é conhecido), nasceu em Agostinho Neto aos 7 de Junho de 1984. Formou-se em Administração nas Faculdades Nordeste (FANOR), em Fortaleza – Brasil. Viveu mais de 2 anos em Angola onde trabalhou em administração e consultoria e desenvolveu o próprio restaurante na Ilha de Luanda. Regressou para São Tomé em 2012, onde decidiu lutar pelo seu sonho.

Despiu-se do convencional fato e gravata e deixou para trás o trabalho das 7h às 17h num escritório em Luanda porque para ele “não se trata de segurança mas sim de correr atrás do sonho”. Sempre gostou de criar as condições para que os outros se divertissem. “O canudo, o curso de administração só me deu conhecimentos para fazer mais. Quando era miúdo já organizava muita coisa, mas era apenas pela diversão. Com a vida também tenho aprendido muito, conheço melhor o mercado são-tomense”.

Fundou o Movimento “Vivê de Cá”, que surgiu numa altura em que havia falta entretenimento no país com o intuito de promover a imagem de São Tomé e Princípe, mostrar o lado “Leve-Leve” da vida e criar experiências únicas. “Começou como algo muito informal: um simples grupo de amigos que se juntava para um picnic, um get-together, mas depois tornou-se empresa”, contou Nig.

O jovem empreendedor criou então a MVC-Comunicação e Serviços Lda., e oferece desde serviços de consultoria na área de Relações Públicas (RP), comunicação e marketing a pacotes turísticos e organização de eventos.

“Depois ausentei-me algum tempo do país e quando regressei percebi que havia necessidade de criar uma marca dentro da empresa para reactivá-la.” E foi assim que nasceu a marca Maxibin. Com este projeto, Nig pretende guiar a carreira de jovens talentos. “Por trabalhar na organização de eventos, reparei que falta alguém que assegure que os talentos nacionais tenham melhor desempenho nas suas atuações e carreiras, que sejam bem pagos, precisam de alguém que os represente e que trabalhe com eles e para eles. Caçamos talentos e tentamos dar sempre um empurrãozinho mesmo que não fiquem connosco,” disse sorrindo.

Maxibin significa mancebo, jovem, recruta e na visão de Nig designa o jovem talento que está a desabrochar. Com esta aposta o RP quer ajudar a desenvolver o potencial da juventude e promover o empreendedorismo jovem.

A expressão mais utilizada nesta gravana é “mambo rijo”. Houve uma polémica nas redes sociais durante o período eleitoral por causa da utilização do #mamborijo. Nig contou ao STP Digital como surgiu esta expressão que já foi adotada por muitos são-tomenses. “Ouvi isso numa música no ano passado e comigo pegou porque um dia eu e uns amigos fomos ter com um jovem que estava a comer apenas banana e eu perguntei-lhe se não tinha peixe. Na brincadeira ele respondeu-me: “Ya, epá, não brinca não! Mambo está rijo!” Ele falou com um ar sério, mas nós já sabíamos que ele estava a gozar. Então, eu peguei no mambo rijo. Sempre que passava por ele eu dizia: não brinca não, mambo rijo. As pessoas lá no bairro começaram a chamar-me mambo rijo. No Bairro do Hospital (meu bairro) já ninguém me chama Nig, todo mundo me conhece por Mambo Rijo. Então, sempre que divulgo um evento utilizo sempre o #mamborijo. E a coisa foi se espalhando, as pessoas foram falando e o hashtag já é utilizado por muita gente.” E também se tornou uma marca.

O RP tem conseguido movimentar multidões para os seus eventos. Perguntamos-lhe como é que consegue atrair tanta gente. “É simples. Eu dou-me com todo mundo. É necessário ser humilde e verdadeiro. E tento ser sempre justo também. Tento adaptar-me ao meio em que estou.” Agora lida muito com os jovens que estão entre os 18-30 anos. Refere-se a eles como “a juventude” como se já não fosse jovem. “Nunca me dão a idade que tenho”, disse vaidoso. E depois um pouco embaraçado como que para compensar a afirmação anterior acrescentou: “Não quer dizer que eu mude quem sou, mas adapto-me para conhecer melhor o meu público”.

Nig explicou que apesar de haver uma certa imagem de que os são-tomenses não gostam de sair muito à noite e que a tendência é saírem mais nas noites de gravana, as coisas não são bem assim. “Os são-tomenses não conseguem ir à todas as festas por questões financeiras. Os salários ainda são muito baixos para a maioria. Também faltam estímulos diferentes porque são sempre as mesmas pessoas, os mesmos tipos de eventos. Então, há que mudar a atração e trazer também outro público para os eventos. Eu estou a tentar ver se trago pessoal angolano, mas existe o problema do kwanza. O mercado angolano é interessante para nós porque os angolanos podem vir passar apenas o fim de semana e curtir uma festa.”

O RP contou ao STP Digital que nesta altura das férias grandes, os jovens reúnem-se em pequenos get togethers em casa. Todavia procuram sempre ambientes com mais adrenalina, grandes festas e raves. “Infelizmente, o poder de compra ainda é baixo e eles procuram festas em que não gastem muito, mas em que se divirtam até de manhã. Na gravana existe público para todos os eventos, quem tiver bons DJ’s nas suas festas terá o evento lotado”.

Na agenda Nig tem uma série de eventos I love Mambo Rijo, como os que já realizou na cidade de São Tomé. Vem aí I love Mambo Rijo Príncipe, na cidade de Santo António. I love Mambo Rijo Praia, em Cabo Verde. I love Mambo Rijo Lisboa/Porto e Coimbra, em Portugal. Numa segunda fase, o RP planeia realizar o I love Mambo Rijo em Luanda (Angola). “Estamos a fechar algumas parcerias nesse sentido para darmos de facto um salto maior. Em princípio faremos 3 a 4 eventos anuais em São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Angola.”

A MVC quer organizar também uma color run (corrida de cores) em São Tomé. Esta corrida tem como inspiração o Holi ou Festival das Cores, celebração tradicional da Índia que comemora o início da primavera. Numa color run o objetivo é o mesmo: partilhar o mesmo espírito de celebração da vida, onde é possível brincar em família, entre amigos, sem pensar em competir.

Outro evento que está na agenda da MVC é o Experience Day/Weekend que consiste em ter palestras, workshops e feira com jovens num dia ou durante um fim de semana. Especificamente para Portugal, Nig disse que quer promover um Black Experience Day: “A ideia é convidar pessoas como o Éder David ou o Anselmo Ralph para falarem sobre a sua experiencia e contarem como foi o caminho deles para o sucesso. O objetivo é inspirar as pessoas através dessas histórias e fechar sempre com uma festa. A pessoa vai ao evento e vive um dia diferente e sai com outros conceitos, outra forma de pensar”, disse Nig entusiasmado. Nig também quer trazer Street Fashion para as ruas de São Tomé.

Aos olhos de muitos o estilo de vida de um RP pode parecer o de alguém que simplesmente não quer trabalhar, sobretudo, para quem nunca organizou um evento e não faz ideia de tudo o que é necessário para as coisas correrem bem. “Eu aprendi a não dar muita importância ao que as pessoas dizem. Eu sei o que tenho que fazer para que a coisa dê certo. Por exemplo, no dia da festa I love Mambo Rijo, saí às 6h e voltei às 6h. Para que o evento seja um sucesso, temos de fazer sacrifícios. Eu não me diverti, mas fiquei satisfeito por ver os outros a divertirem-se. Houve falhas, que vamos corrigir. E a vida é mesmo assim e é assim que se aprende para fazer melhor. Mas não é fácil. Tem que se gostar muito. E quando se trabalha naquilo que se gosta pode se trabalhar como escravo”, disse Nig.

Perguntamos-lhe qual é o limite para ele? “Não há limite. Mas eu gostaria muito de pôr São Tomé no mapa de destinos para grandes eventos: festivais e festas. Conseguir voos charters, cruzeiros para trazer pessoas para esses grandes eventos. Acho que um dia podemos chegar lá, construindo boas parcerias. Desde de operadores turísticos às autoridades para que trabalhemos juntos para que a coisa dê certo. Porque nós somos hospitaleiros por natureza, mas falta trabalhar na vertente entretenimento para dar melhor resposta ao turismo”.

Nig acrescentou ainda que sonhar é fácil, mas que o problema é depender dos outros. “Ainda não tenho todos os equipamentos necessários para realizar um evento. Assim sendo, dependo das colunas de alguém, das luzes de alguém, e mesmo sendo um serviço pago, cada um chega a hora que lhe convém e não se consegue cumprir com o cronograma e há sempre atrasos. Tenho sempre que contornar e improvisar, mas a dependência financeira é mesmo o maior desafio. Temos de contar sempre com os patrocínios, pois nem sempre podemos investir o nosso e correr o risco de perder.”

Estão a surgir cada vez mais empresas de eventos e Relações Públicas no país, mas Nig lida bem com a concorrência. “Para mim é sempre bem-vinda. Instiga-me a investigar mais, procurar sempre um diferencial e deixa o mercado mais competitivo e agradável para se trabalhar e o público são-tomense agradece”.

Mas a vida não é apenas trabalho. E o coração está disponível? “Agora está! Eu estou ansioso para ser pai. Procuro uma mãe para o meu filho. Quem sabe esse desejo não se realize este ano”.

Entrevistado por
Katya Aragão

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