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Cardiologista propõe erradicação da febre reumática em STP

Conheça uma das sãotomenses que participou este ano na Iniciativa Jovens Líderes Africanos – YALI (Young African Leaders Initiative).

Miryan Bandeira dos Prazeres Cassandra Soares (34 anos) é a primeira, e até então, a única cardiologista de São Tomé e Príncipe. Licenciada em medicina pela Escola latino-americana de medicina em Ciego de Ávila-Cuba desde julho 2009, especialista em Cardiologia desde janeiro 2016, pela Ordem dos médicos de São Tomé e Príncipe após formação em Coimbra Portugal. A Dra. Miryan Cassandra é autora e co-autora de publicações cientificas em revistas médicas internacionais. É responsável da unidade de cardiologia do Hospital Dr. Ayres de Menezes desde janeiro de 2016. Também é membro da ONG Cadeia da Esperança na luta contra as doenças cardiovasculares em São Tomé e Príncipe. Interessa-se fundamentalmente pela erradicação da febre reumática em São Tomé e Príncipe e já foi oradora no TEDxSãoTomé, onde falou sobre o coração humano.

STP Digital: Porquê medicina? E cardiologia?

Dra. Myrian Cassandra: Por vocação. Nunca me imaginei fazendo outra coisa. Cardiologia porque simplesmente fazia todo o sentido posso dizer que me apaixonei por esta especialidade.

STP Digital: Quais são os grandes desafios de exercer medicina em STP?

Dra. Myrian Cassandra: Os desafios são enormes, mas o maior de todos para mim é saber o que tem de ser feito e não ter condições para o fazer. Não ver reconhecido o esforço que é feito por parte do profissional, um salário muito além do esperado e poucos incentivos a investigação cientifica como forma de crescer profissionalmente.

STP Digital: Este ano participou na Iniciativa Jovens Líderes Africanos nos EUA. Como foi a sua experiência YALI?

Dra. Myrian Cassandra: A minha experiencia foi fantástica, pois tive a oportunidade de estar diariamente com 49 jovens africanos de 19 nacionalidades de diferentes partes da África subsariana, onde foi possível trocar experiencias sobre o que de bom e o potencial do continente africano, sobre os projectos e desenvolvimento que tem havido nos últimos anos. Estive numa das mais antigas universidades estaduais dos Estados unidos situada no estado de Nova Jersey, a Rutgers University, uma universidade cheia de história com uma arquitectura impressionante. O melhor de tudo: fomos acolhidos por pessoas maravilhosas que fizeram de Rutgers uma casa longe de casa. Estando na área de liderança cívica foram-nos proporcionadas conferencias, workshops com uma carga horária de cerca de 10h diarias e Sites visit que não só enriqueceram a nossa cultura geral como o museu de História Afroamericana, Nações Unidas, Capitólio, encontro com congressistas americanos entre outros, participação e entendimento da importância do trabalho voluntário numa sociedade. Tive ainda a oportunidade de estagiar no serviço de cardiologia do hospital Robert Wood Jonhnson o que foi a cereja no topo do bolo.

STP Digital: O que aprendeu?

Dra. Myrian Cassandra: Aprendi que de facto nós temos de ser a mudança que queremos ver, não podemos sentar e esperar. A hora é agora. Que qualquer ideia que tenhamos não passa de uma ideia se não a pusermos em acção. Aprendi que ser líder é saber escutar, aceitar críticas e estar disposto a mudar, acreditar em nós próprios, mas acima de tudo, acreditar na nossa visão e levar a cabo a missão.

STP Digital: O que mudou na sua vida depois desta experiência?

Dra. Myrian Cassandra: Penso que ganhei mais forças para lutar pelas coisas em que acredito; que o “não sou capaz” não existe. Que posso fazer muito pelo meu país e isso depende em grande parte de mim.

STP Digital: Como vai partilhar esta experiência com São Tomé e Príncipe?

Dra. Myrian Cassandra: Em primeiro lugar, junto a outros Mandela´s Washington fellows 2017, fui recebida pelo Presidente da República Evaristo Carvalho, com o objectivo de falar sobre o programa e engajar um maior envolvimento das autoridades nacionais em programas desse género, pedir a participação e o apoio nos projectos que viremos a por em prática. Neste momento tenho estado em negociações com o Ministério da Saúde para implementação de um programa bastante ambicioso, desenvolvido durante a minha estadia nos Estados Unidos, que penso que trará grandes benefícios a nossa população.

STP Digital: E em que consiste esse programa?

Dra. Myrian Cassandra: Programa de erradicação da febre reumática em São Tomé e Príncipe. Esta é uma das principais causas da doença cardíaca no nosso país e tem ceifado muitas vidas. Primeiro é necessário que se reconheça a existência do problema. O programa permitirá fazer o registo de casos diagnosticados bem como o seguimento dos pacientes. Implementar a prevenção primária e a secundária. Educar a população em geral para os sintomas e a necessidade de procurar os serviços de saúde. Educar os profissionais de saúde no diagnóstico precoce e adequado assim como o tratamento indicado. Mas para tudo isso precisamos de meios diagnósticos que têm de ser postos ao nosso alcance.

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