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Carina Cassandra, diretora da ESPAÇOS STP: “Olhavam para mim com muita descrença e pediam logo para falar com quem manda – O chefe”

Carina Cassandra. Foto: Ody Mpouo.

A presença feminina no mercado de trabalho formal ainda está abaixo dos homens, nomeadamente em cargos de decisão. E quando se trata de mulheres jovens é um fenómeno ainda muito raro em São Tomé e Príncipe. A jovem sãotomense de 28 anos, Carina Cassandra, contraria a regra.

Carina Cassandra é estudante e trabalhadora, tal como a maior parte dos estudantes universitários sãotomenses. Está no último ano do curso de Direito na Universidade Lusíada de São Tomé e Príncipe e é diretora da ESPAÇOS STP e da ESPAÇOS CV (Cabo Verde).

STP Digital – Fale-nos um pouco sobre a sua caminhada e como começou a trabalhar com publicidade exterior.

Carina Cassandra: Depois de suspender a frequência universitária em Portugal, regressei à São Tomé e comecei a trabalhar num escritório de advogados. Foram 3 ótimos anos de muita aprendizagem. Enquanto responsável do serviço a clientes encaminhei o processo de constituição da Espaços STP. Neste processo, o DG da altura quis-me recrutar. Mas, não estava formatada para deixar o projeto do escritório e aventurar-me numa área com a qual nunca me identifiquei. Venho de letras e nunca me considerei uma pessoa criativa (risos). Ao fim de um ano, achei que precisava de um fresh start e decidi voltar a estudar (direito). Foi nesta altura, que decidi também desafiar-me: até que ponto trabalhar com publicidade seria um bicho de 7 cabeças? Fechado o capítulo do escritório, abracei o universo da comunicação da Espaços, que vai além da publicidade exterior, também conhecida por OOH – Out of home. Como diz a nossa assinatura, somos “muito mais do que se vê”.

STP Digital – Em São Tomé e Príncipe não é comum as empresas terem jovens e ainda mais do sexo feminino em cargos de direção. Qual costuma ser a reação no meio em que trabalha e como lida com isso?

Carina Cassandra: (risos) É verdade! O mundo ainda não está preparado para este novo normal e São Tomé e Príncipe não foge à regra. Por ser um país pequeno e machista, olhavam para mim com muita descrença e pediam logo para “falar com quem manda – O chefe”. Não me deixei intimidar! Apesar de nova e mulher, fiz o meu percurso para me levarem à sério. Profissionalismo, rigor e consistência são as palavras chave. Hoje estou mais segura e acredito que me vêem com outros olhos.

STP Digital – Nos últimos anos houve uma evolução dos média exteriores no país. Como avalia a relação do público sãotomense com este tipo de média?

Carina Cassandra: A olhos vistos que sim. A Espaços marcou o início da era dos média exteriores em São Tomé e Príncipe. Digo isso sem pretensão nenhuma, pois fomos nós a trazer os primeiros outdoors para cá. A partir daí, foram surgindo outros players que consolidaram o mercado publicitário. A concorrência é necessária para se sair da caixa. Há dois anos, senti uma maior mexida entre as marcas sãotomenses, que começaram a incluir o outdoor no plano de comunicação. Estudos indicam que o média exterior é o meio de comunicação mais eficaz em África, onde as pessoas passam muito tempo na rua e nem todas têm uma televisão ou acesso à rede elétrica. Acho que as empresas sãotomenses começaram a aperceber-se disso.

Carina Cassandra. Foto: Ody Mpouo.

STP Digital – As redes sociais têm ganho cada vez mais espaço. Na sua opinião, esse crescimento poderá ser uma ameaça à publicidade exterior, visto que chega diretamente ao público alvo?

Carina Cassandra: Ameaça nunca. Vejo como meios complementares. Nesta era digital, onde temos muita informação acessível com um click, o média exterior teve de se reinventar. Tornar-se mais sexy e criar experiências positivas para o target. A aposta em suportes diferenciadores ou com comunicação 2D, são exemplos dessa metamorfose. Por outro lado, a Espaços enquanto universo de comunicação, pensa soluções de A à Z para os clientes, não se fixando só em exterior. Nós ajustamo-nos à era em que vivemos e por isso a nossa oferta não é estanque, é dinâmica e abrangente na medida em que pensamos, criamos e executamos soluções de marketing e média com uma visão estratégica e integrada do mercado e de todos os pontos de contacto com o consumidor final.

STP Digital – Estando na área da publicidade não sente necessidade de ter presença online? Porquê?

Carina Cassandra: Sempre senti alguma pressão para estar nas redes sociais, mas agora é bem maior. Para prestar um serviço de excelência temos de estudar as marcas, as suas ações nos diversos meios, a informação disponibilizada. E acabo por estar um bocado à margem, não tendo Facebook nem Instagram, Estou a ponderar criar contas apenas para efeitos profissionais. (risos)

STP Digital – Quais são os maiores desafios que enfrenta no mercado sãotomense?

Carina Cassandra: Essencialmente, a dimensão do mercado e o desconhecimento dos benefícios do marketing e da comunicação. Apesar de ser um mercado pequeno que não permite grandes apostas, muitas marcas ainda vêem a comunicação apenas como um custo e não como um investimento com fortes possibilidades de retorno, não apenas financeiro, mas também em termos de notoriedade e território de Marca. E há várias formas de comunicar: uma ativação de marca, um rooftop, um spot tv, uma rede social ou um outdoor são meios de comunicação. Além disso, acredito piamente que precisamos de melhorar a qualidade da oferta. Temos de nos profissionalizar, definindo metas e elaborando estratégias cada vez mais direcionadas para o consumidor final. Seja em qualquer parte do mundo, o consumidor está cada vez mais atento e mais exigente e nós sãotomenses não somos exceção.

STP Digital – Para além de dirigir a ESPAÇOS STP, acumula também a responsabilidade de dirigir a ESPAÇOS CV. Como concilia tudo isso com a universidade e vida pessoal?

Carina Cassandra: Resume-se a 3 palavras: equipa, método e resiliência. Equipa, porque tanto em São Tomé e Príncipe como em Cabo Verde, além de direcção partilhada, há toda uma equipa invisível que é a base do sucesso da Espaços. E estamos a falar dos operacionais (que fazem a magia acontecer na prática), dos criativos, dos administrativos, enfim, todo um universo que sem uma equipa forte e coesa, não seria possível.

Método, porque se não tivesse alguma organização diária e constante (entre agendas, post its e notas no telemóvel (risos)) estaria completamente perdida.

Por fim resiliência, porque devido à minha mobilidade, perco algumas aulas essenciais, mas nunca desisti de fazer um exame ou entregar um trabalho. Ao fim de horas de trabalho, troco o chip e vou à faculdade. Dou o máximo para conciliar tudo, mas não vejo a hora de acabar (risos).

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