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ESPECIAL: Corte de Relações Diplomáticas com Taiwan – 522 dias depois

Foto: @facebook Associação de Santomenses em Taiwan

Os filhos do “divórcio” diplomático

Os estudantes sãotomenses em Taiwan

Foi um casamento que quase chegou a ter “bodas de porcelana”, expressão utilizada para a comemoração dos 20 anos de casamento. Um casamento que começou cheio de expetativas e abrasamento típicos do começo de qualquer relacionamento. Em 1997 foram estabelecidas as relações diplomáticas entre as Ilhas Maravilhosas e a Formosa por iniciativa do então Presidente da República, Miguel Trovoada, o que implicou a ruptura de laços com a República Popular da China.

Uma série de acordos de cooperação bilateral foram estabelecidos nos setores da saúde, agricultura, tecnologias de informação e comunicação energia, infra-estruturas e educação. Taiwan concedia também anualmente bolsas de estudo para sãotomenses e o país já tinha uma pequena comunidade formada por aqueles estudantes.

Evocando a defesa dos interesses nacionais e a conjuntura internacional o governo justificou a sua decisão de cortar relações com Taiwan e retomar as relações com a China. Por consequência, Taiwan cancelou as bolsas de estudo dos estudantes de São Tomé e Príncipe.

O Ministério da Educação através da Direção de Ensino Superior entrou em contacto com a extinta Associação de Sãotomenses em Taiwan e informou-os que seriam transferidos para a China. Os estudantes foram apanhados de surpresa e entraram em pânico tal como os pais. Nesta reportagem, o STP Digital convida o/a leitor/a a descobrir onde e como estão os estudantes sãotomenses que estavam em Taiwan quando se deu o corte de relações diplomáticas em 20 de dezembro de 2016.

Partir ou ficar

Aos estudantes foi dada uma escolha: ou partirem para a China, sem saberem realmente se teriam de começar do 0 ou se continuariam no mesmo curso; ou ficar sem apoio nenhum do Estado sãotomense. A maior parte partiu.

Dos 62 estudantes sãotomenses em Taiwan, agora restam apenas 9, que optaram por permanecer. António Lima (23 anos) é um desses estudantes. Gosta de viver na Formosa por ser bastante segura e desenvolvida, mas também “bastante conveniente, visto que, os meios de transporte, as lojas e outros serviços estão localizados de uma forma bastante pragmática e de fácil acesso”, explica.

Termina este ano a licenciatura em Engenharia Elétrica e conta que quando soube da notícia não acreditou e ficou abalado. “Contudo tivemos depois a confirmação por parte do nosso embaixador de que realmente tinham cortado as relações diplomáticas com Taiwan”.

Os estudantes bolseiros recebiam do governo taiwanês um valor mensal de 30,000 NTD (cerca de 20.580,00 novas Dobras). “Tendo em conta que o custo de vida em Taiwan é alto, claro que tivemos que fazer cortes nas despesas, para termos o suficiente para pagar a escola, o alojamento e as despesas do quotidiano”, relata António.

Para Denise Aragão (22 anos), Taiwan é e sempre será uma segunda casa. Estava no 3º ano do curso Relações Internacionais e Diplomacia quando aconteceu o corte de relações. “O que mais me chocou foi a maneira como tudo se passou! Num dia tudo estava normal e no dia seguinte houve essa mudança repentina. Outro aspeto que me chocou foi o fato de o governo sãotomense apenas ter apresentado a ida para China Continental como sendo a única maneira de continuarmos a ter acesso a bolsa, sem sequer ter em conta que alguns de nós já estávamos praticamente no fim do curso, e não tínhamos qualquer informação específica acerca da possibilidade de obter equivalência dos créditos que já foram concluídos, ou seja, seria ir sem saber o que nos esperava”, desabafa Denise, que conclui o curso em Junho do ano corrente.

Quando ficou sem bolsa foi obrigada a recorrer a ajuda dos pais e também a encontrar um part-time. “Apesar de inicialmente, ter sido difícil aceitar que já não teríamos bolsa por algo que não foi causado por nós, no meio da “turbulência”, encontrei a oportunidade de aprender mais, de saber gerir o tempo entre a Universidade e o trabalho, ganhando cada vez mais experiência, o que tem contribuído para o meu crescimento pessoal”, conta Denise.

Para a estudante as consequências do corte de relações vão além da bolsa de estudos. “A grande ponte que tínhamos entre os estudantes e os taiwaneses era a Embaixada de São Tomé e Príncipe em Taiwan. Com o sucedido, a maioria dos estudantes teve que abandonar Taiwan e claro, deixamos de ter embaixada cá. Senti que, de certa forma, tiraram uma parte de mim. Visto que tínhamos várias atividades culturais através da Embaixada de STP que nos mantinham mais unidos e faziam-nos sentir menos longe de casa”.

Elson Carvalho (23 anos), conclui em Junho deste ano a licenciatura em Gestão de Empresas, também escolheu ficar em Taiwan e não se arrepende. “Simplesmente porque sabia com o que podia contar cá e não tinha garantias do que me aconteceria na China. Surpreendeu-me a distância entre as diversas partes envolvidas no processo. Sem dúvida, que nenhum de nós estava à espera que as coisas se desenvolvessem de uma maneira tão desorganizada, e quase sem nenhuma informação a ser disponibilizada”, diz o estudante. “Gostaria apenas que nos tivesse sido explicado o que de fato iria acontecer. Pedia-se um bocado mais de transparência”, acrescenta Elson.

Era uma vez na China

“Deparei me com notificações e mensagens de amigos e familiares no facebook/whatsapp, no dia 21 de dezembro de 2016”. Foi assim que Ana Sofia Viegas (22 anos), ficou a saber que São Tomé e Príncipe tinha cortado relações diplomáticas com Taiwan.

Ana estava no segundo ano da licenciatura em Engenharia Civil e deveria graduar-se em julho de 2019. Com a mudança para a China continua no mesmo curso e tem previsão de conclusão em julho de 2020. Na opinião da estudante não lhes foi dada realmente uma opção. “Não tive escolha, ainda faltavam 2 anos e meio semestre para graduar, e fazer isso sem bolsa, iria ter muitos custos!”

A estudante sãotomense conta que o processo de transferência foi apressado. “Pedir transcrições de documentos, arrumar malas, vender/doar objetos que não havia como transportar, rescindir os contratos de casa, etc. Além disso, a viagem para a China tinha escala em Hong Kong (para adquirirmos o visto) e após termos chegado no aeroporto de Beijing, ainda andamos 3 horas de autocarro até chegarmos à nossa universidade. Foi cansativo!”, relata Ana. A sua adaptação ao país não foi fácil. “Adaptar me a uma nova cultura e gastronomia, o fato de não falarem inglês, a sobrecarga horária, carateres simplificados… é puxado!”, deixa escapar.

Segundo Ana, o valor da bolsa em Taiwan era duas vezes maior do que o valor da bolsa atual. “Mas no fim das contas é em média o valor que tínhamos livre para usar em Taiwan, pois a bolsa de Taiwan não cobria nenhuma despesa escolar (propinas nem livros), ou seja, tinha se de gerir o dinheiro para despesas de casa ou dormitório, propinas, livros, alimentação, transporte e lazer. Aqui já temos a escola e dormitório pagos, e com a bolsa temos de preocupar nos com os livros, alimentação, transporte e lazer.”

Cerca de uma centena de estudantes sãotomenses estão na China e recebem uma bolsa mensal de 2500 yuan (cerca de 7.864,50 novas Dobras). Lucideiny Almeida (21 anos) também passou pela mudança de Taiwan para a China. Estava no segundo ano do seu curso antes da mudança para Tianjin, e agora está no terceiro ano de Ciências Farmacêuticas. A estudante explica que apesar de não ter que pagar a faculdade e o dormitório, o valor da bolsa não é suficiente. “Tratar de documentos pode chegar a custar 1000 yuans, o tratamento para um problema de saúde sério pode custar acima de 2500 yuans. Alguns alunos têm seguro de saúde nos hospitais da escola, mas os hospitais da escola não tratam de tudo“, relata Lucineidy.

Lucideiny conta que apesar da súbita mudança, foram bem recebidos quando chegaram e que os professores tentaram ajudá-los na medida do possível. E até prefere o ensino na China: “acredito que a educação na China é melhor do que em Taiwan porque é mais objetiva e prática.”

Também Lucineidy reclama da falta de informação no processo de mudança.   “Tínhamos de esperar por publicações no Facebook para saber do nosso destino. Enviamos cartas com questões pertinentes e fomos ignorados. Foi tudo em cima da hora. Só soubemos que o governo ia pagar os bilhetes de viagem dias antes, só recebemos o dinheiro para pagar pelo excesso das bagagens horas antes da viagem, e o aeroporto ficava à horas de distância. Então foi uma correria para levantar o dinheiro e chegar ao aeroporto à horas. E só soubemos para que cidade íamos em HongKong”, desabafa.

Para a estudante de Engenharia Civil, Regina Pires dos Santos (24 anos), viver na China é “como viver num país estrangeiro onde a língua oficial não é igual a nossa. Não posso reclamar a vida em geral para um estudante com bolsa aqui é boa.” Regina queria ficar em Taiwan, mas achou que não conseguiria conciliar o trabalho e os estudos.

Diz que gostava que as coisas tivessem sido feitas de outro modo. “São Tomé e Príncipe não foi o único país a cortar relações diplomáticas com Taiwan. Panamá também cortou logo à seguir, e, ao contrário do nosso governo, os estudantes panamenhos puderam escolher entre virem para a China com uma bolsa de estudo ou ficarem e o governo arcar com os gastos académicos.”

Regina conta como a sua vida mudou desde que foi transferida para Tianjin. “Antes (em Taiwan) tudo era mais colorido, menos complicado. Às vezes dava a impressão que não estava assim tão longe de casa, a comunicação com os familiares era fácil e frequente. Em termos académicos, a compreensão era melhor, pois alguns professores falavam inglês, os livros e os exames também eram em inglês. Já na China, apesar de a vida também ser colorida, devido as várias regras e restrições, a comunicação com os familiares é difícil, logo não é frequente. Em termos académicos é muito mais difícil. Sou literalmente comparada a um aluno nacional, as aulas são em chinês, os livros e os exames também, então a compreensão é pouca e lenta.”

Quase 2 anos depois do corte de laços diplomáticos entre São Tomé e Príncipe e Taiwan, os estudantes que escolheram ficar terminam o curso no próximo mês e o mundo assiste ao crescente isolamento da Ilha Formosa. Depois de São Tomé e Príncipe, outros países como Panamá, República Dominicana e Burkina Faso, também decidiram estabelecer relações com a República Popular da China, reconhecendo a existência de “uma só China”.

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