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Opinião São Tomé e Príncipe

Aonde está a nossa identidade ou São-Tomensidade?

No dia 21 de maio publicamos o primeiro capítulo, no dia 28 do mesmo mês, publicamos o segundo capítulo de uma série de cinco capítulos do artigo de opinião do engenheiro Luís Paquete d’Alva Teixeira, sobre o processo de povoamento das ilhas de São Tomé e Príncipe. Neste terceiro capítulo, descubra sobre a origem e questões pertinentes da nossa são-tomensidade. Com “O Povoamento Nostálgico-Traumático das Ilhas de São Tomé e Príncipe e o seu antropónimo“, todas as segundas, os leitores do STP Digital poderão ler um capítulo novo e aprender mais sobre a história do nosso país.

Muitos questionam, aonde está a nossa identidade ou São- Tomensidade?

Pois esta identidade ainda está sendo formada, ao analisarmos o nosso arquipélago que tenha, sido formado por 4 ou 5 famílias, num horizonte de 400-450 anos. Podemo-nos considerar numa fase de maturidade evolutiva antropológica ao comparamos com muitas civilizações do nosso continente que já são milenárias.

A outra etapa da nossa mélange antropológica, inicia-se na segunda metade do séc. XIX e o princípio do séc. XX , com a abolição da escravatura e a diminuição da mão-de-obra barata nas plantações dum produto diferente da cana-do- açúcar que é o Cacau vindo do Brasil.

Neste momento histórico da nossa civilização, houve uma nova forma de miscigenação antropológica com a chegada dos produtores Brasileiros para as culturas do cacau, café, como fontes de rendimento agrícola e a fruta-pão com base alimentar da população nativa. Estes emigrantes eram empresários, Políticos e Militares Brasileiros que se integram, enquadraram e miscigenado com a população nativa.

É de realçar a eminente figura descendente do Brasil que é João Maria de Sousa e Almeida que foi Governador de Benguela e 1º Barão de Áua – Izê, que trazendo da Ilha do Príncipe o Cacau ornamental, transformou-lhe num produtor comercial nas terras de São Tomé.

Outros exemplos dos Brasileiros emigrantes em São Tomé e Príncipe foram os irmãos de distintas famílias tais como Leandro José da Costa, Tomás José da Costa, António da Costa Cravid e Isidoro da Costa Cravid.

Cruz trazida do Brasil para São Tomé pelo Isidoro José da Costa.

O brigadeiro Leandro José da Costa foi Governador de São Tomé em distintas etapas (1837-1838,1843,1849 e 1851).

Um caso a salientar é o da minha árvore genealógica, visto que sou descendente da família José da Costa e da Costa Cravid pois a minha avó materna foi Maria do Nascimento José da Costa, filha do Brigadeiro Leandro José da Costa.

A minha avó paterna é Cecília da Costa Cravid, filha de Isidoro da Costa Cravid. A minha descendência Brasileira é de ambas as partes. Os meus pais não possuíam os sobrenomes deles, visto que na altura as crianças só eram registadas com os sobrenomes paterno.

Segundo fontes de conversas com as pessoas mais idosas de São-Tomé e Príncipe foi o Governador Carlos de Sousa Gorgulho que estandardizou os sobrenomes (paterno e materno) em São Tomé e Príncipe nas décadas 30 – 40 do século XX. Neste contexto temos muitas famílias São- Tomenses que têm a sua descendência do Brasil.

Um factor importante a salientar é a abolição da escravatura em São Tomé e Príncipe e a mão de obra barata para a produção da cultura do cacau . A cultura do cacau estava no seu auge, sendo nesta altura São Tomé e Príncipe grande produtor mundial de cacau em África e no mundo. Os lucros eram exorbitantes neste período devido a mão de obra escrava barata.

A abolição da escravatura, já tinha sido feita, por grande parte das Nações Europeias e também nos Estados Unidos da América, restando Portugal, um dos únicos bastiões desta actividade na agricultura e outros serviços. As nações europeias principalmente o Reino Unido da Grã-Bretanha, interpuseram embargo e sanções económicas á Portugal, devido a forma como era produzida este produto de extrema importância na altura.

Para a resolução desse problema e em tais circunstâncias, Portugal recorre-se as outras modalidades contratuais de curto prazo na aquisição da mão-de-obra barata nas suas Colónias de Angola, Moçambique e Cabo-Verde para a cultura do cacau e café nas Ilhas do Equador.

Estes contratos eram temporários em cerca de 5 anos, outros nem seguiam estas normas, pois recorriam-se as rusgas cujas pessoas eram presas e metidas em navios que rumavam para as nossas Ilhas, mas a nostalgia dos contratados e resgatados vivia latente nas suas memórias, visto que muitos pretendiam regressar as suas terras natais mas não tinham possibilidades devido a forma em que os mesmos eram celebrados e do resgate.

Os Angolanos, Moçambicanos e Cabo-Verdianos se miscigenado com a população local, existindo actualmente seus descendentes.

Como exemplo deste sentimento nostálgico temos a música Cabo-Verdiana;

Quem tá mostrabos caminho longe, tá mostrabos caminho longe,és, caminho pá São Tomé!”.

Outras paragens do império Português, aonde a mão-de – obra veio, foi Macau e parte da Índia Portuguesa (Goa, Damão e Diu). Nesta altura também houve um certo fluxo de judeus comerciantes para as culturas de cacau, cana-de-açúcar, canela praticando também outras actividades relacionadas com o comércio nas lojas e farmácia.

A primeira vinda do povo chinês as nossas Ilhas data-se nos finais do século XIX. Os Chineses oriundos de Macau que na altura eram também denominados de “coolies” nome designado aos trabalhadores braçais oriundos da Ásia, (principalmente da China e Índia) nos séculos XIX e princípios do XX.

No dia 25/03/1895 partiu de Macau no Navio África rumo a São Tomé 450 Chineses, sendo respectivamente (439 homens e 11 mulheres), como mãos de – obra para as culturas do Cacau e Café nas roças. Este navio chegou a Ilha de São Tomé á 17 de Maio deixando grande parte deles e no dia 20/05/1895, o restante na Ilha do Príncipe.

A maioria dos chineses foi encaminhada para as grandes roças naquele momento tais como:

Frederico Biester, Francisco Mantero, Jerónimo Carneiro, Salvador Levy, Nicolau Costa, Henrique Mendonça, Nicolau dos Santos Pinto, Manuel Santiago, Amaral & Irmão, Sociedade Belard & Filhos, Visconde Vale Flor, Companhia Agrícola do Príncipe, Banco Nacional Ultramarino, Companhia Agrícola da Ilha de São- Tomé.

Os Coolies chegaram contratados por 5 anos, diferentemente com o que acontecia com os Angolas (vindos da Província de Angola). Os chineses auferiam 4$500 réis (9 patacas moeda de Macau na altura) sujeitos a descontos, mormente por doença, circunstâncias em que perdiam o salário correspondente aos dias de baixa, ou para custear a repartição, a ser suportada pelo desconto mensal de 2 patacas.

Independentemente dos que viveram nas roças, onde os trabalhos eram árduos no mato os coolies revelaram-se com outras actividades, como pequenos comerciantes, fazendo negócios com os serviçais e posteriormente nas Ilhas. Os coolies em São Tomé e Príncipe foram denominados de Macaenses ou Macaístas se envolveram com a população negra dando a origem a miscigenação São- Tomé+ Macau. Actualmente temos famílias São-Tomenses de origem chinesa.

Os Indianos de Goa, Damão e Diu, também fizeram parte dos “coolies” em São Tomé e Príncipe, principalmente na plantação e cuidados do palmeiral e coqueiral, assim como na prestação dos serviços de saúde no combate da doença do sono oriunda da mosca Tsé-Tsé na Ilha do Príncipe na primeira metade do século XX.

É de realçar que esta epidemia fez vítimas mortais tanto em pessoas como em gado principalmente o bovino. Estes indianos embora em proporções menores, também deixaram os seus descendentes nestas Ilhas.

Os Indianos também realizavam actividades comerciais no nosso território.

Em São Tomé e Príncipe, estiveram num passado recente professores de origem indiana respectivamente (Anita Estebeiro, Hugo Antão e Filomena Cunha), leccionando no Liceu destas Ilhas, assim como na área de Saúde o Dr. º Mário Leão.

Com muito respeito e consideração que tenho para com os supramencionados, os frisei no meu artigo por terem sido meus professores no Liceu.

Estiveram entre nós os ciganos, realizando comércio informal de vestuários em zonas rurais da Ilha de São Tomé, mas não sei se deixaram seus descendentes.

Na primeira metade do século passado, estiveram neste arquipélago, para a instalação de cabos submarinos os Serra Leoneses e Ganenses que eram denominados pela população local “Inglegi Pletú” (Inglês Negro), que deixaram também seus descendentes nestas Ilhas.

 Os Noruegueses estiveram em São Tomé, na década 30-40 do século XX, na cidade das Neves para a caça das Baleias e produção de óleo da mesma para a industrialização.

O nome Abel pode ter sido da ascendência Norueguesa.  Continua… 11 de Junho de 2018 

Luís Paquete d’Alva Teixeira

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