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Dekker Jordão Baptista – “Crise é sinal que existe oportunidade.”

Dekker Baptista Jordão

Conheça o empreendedor sãotomense que não teve medo de apostar no mercado brasileiro. O STP Digital este à conversa com o administrador de empresas, Dekker Jordão Baptista, que falou sobre o seu percurso pessoal e profissional. Foi a partir de Brasília, que Dekker respondeu as nossas perguntas no seu português do Brasil.

No Brasil há 13 anos, Dekker Jordão Baptista nasceu em São Tomé, em 22 de janeiro de 1983 e formou-se em administração de empresa privada pela Universidade de Brasília – UnB. Tem também um MBA em gestão estratégica de organização com ênfase em Balanced Scorecard – BSC pela Universidade Católica UCB, e considera-se um doutorando eterno em empreendedorismo e gestão de empresas na escola da vida.

Tem 2 filhos que vivem em Londres, é o nono de um total de doze irmãos, dos quais apenas cinco têm a mesma mãe que ele. Apesar de ter tido uma infância tranquila as coisas eram difíceis em casa. O seu pai tinha um pequeno comércio que não era suficiente para sustentar 12 filhos. Adepta de atividades da igreja e projetos sociais, a sua mãe é funcionária de um asilo, onde cuida de idosos. “A única coisa boa que meu pai fez por mim foi me ter colocado na escola. Nunca procurou saber como eu ia, nunca foi para uma reunião, raramente aparecia em casa nos aniversários. A minha mãe, uma mulher muito batalhadora, fazia “matemágica” para nos sustentar com o pouco que recebia de salário.”

Dekker costuma visitar a terra natal uma vez por ano e pretende começar a explorar o mercado sãotomense. Fundou com um sócio a empresa DAEXE, da qual é CEO.

Dekker Jordão Baptista

STP Digital – Fale-nos sobre o seu percurso.

Acho que essa resposta será longa hein… Mas vou tentar resumir. A imagem que tenho de anos atrás e posso até estar errado é que o nosso país por depender aproximadamente 90% de ajuda externa não tem muitas oportunidades para os que lá vivem, mesmo depois da independência. Os europeus são donos dos maiores complexos turísticos e hoteleiros, o turismo é uma das fontes de rendas. Outro caminho é emprego público, em que para você conseguir tem que ser filiado a um partido ou muito esquema, então ou você continua trabalhando para alguém ou tem que se aliar a um partido.

A outra opção é emigrar para Europa e procurar trabalhar em canteiro de obra. Eu não acho ruim esses trabalhos, o ruim é que eu não achava correto seguir um padrão, eu me sentia errado na concepção do certo. A maioria dos meus irmãos mais velhos seguiu esse padrão de emigrar naquela altura, e eu, como um “desvio do padrão” não segui.

Ai um dia estávamos jogando uma pelada (jogar à bola) com os colegas do bairro lá na “Quinta” (Quinta do Bairro de Santo António) e apareceu o Biba – meu primeiro mestre no karatê. Nos fez um convite para treinar karatê. Naquela altura era algo muito novo e eu logo imaginei: “opaaa, a gente vai ser o Bruce Lee, Chuck Noris”. Aí vi que eu iria sair do padrão e aceitei logo. Foi um bom projeto que depois de um bom tempo já encurtando a história toquei a escola de karatê AKS (Academia de Karaté Santomense), esse foi o meu primeiro contato com empreendedorismo.

Me destaquei nesta arte consegui representar São Tomé e Príncipe no exterior, consegui emprego de segurança, fui guia turístico, segurança e motorista de embaixador até um dia que fui chamado para uma vaga de estudo no Brasil. Eu tinha vontade era de estudar no Canadá, mas não consegui.

O Brasil é um país que não dá bolsa de estudo, só disponibiliza vaga, eu não tinha condições de bancar e nem a minha família. Com a grana do meu trabalho na altura só consegui comprar uma moto. Todo mundo me aconselhou a não vir porque Brasil é muito perigoso, eu não conhecia ninguém, etc., mas mesmo assim, “como me sinto um desvio do padrão” resolvi vender a moto para comprar a passagem. Cheguei aqui, não conhecia ninguém. Entrei em contato com alguns conterrâneos que me acolheram, mas como tinha que dividir o aluguel e não tinha grana para nada, fiz solicitação aos meus irmãos e uma amiga portuguesa que conheci em São Tomé, que me enviaram uma graninha, mas mesmo assim eu achava que eu ia ter livros grátis, alimentação, etc., na universidade.

Aí é que eu vi que é importante planejar. Essa palavra todo mundo sabe que é importante, mas ninguém executa. Gente, não planejar é mesma coisa que planejar o fracasso.

Em 15 dias no Brasil percebi que tinha que fazer alguma coisa diferente. Foi assim que eu saí procurando alguma escola de karatê para dar aula e treinar. Bati de porta em porta, a maioria das escolas queriam que eu pagasse para treinar, eu tava bem duro, mas não desisti até eu sentar lá na rodoviária me perguntando o que fazer. Desisto ou não desisto? E assim resolvi desistir, isso mesmo, eu desisti de desistir. Eu fui para uma loja onde tinha computador com internet grátis e acessei o google e pesquisei escola de “karatê em Brasília”. Estava um funcionário que me viu pesquisando e me perguntou: “você gosta de karatê, negão?” Respondi que sim e ele perguntou onde treinava. Expliquei que estava procurando, mas que não tinha grana para pagar, aí ele me passou um contato do “projeto POWER” liderado pelo grande Sensei Lindomar Matos que me acolheu com a condição de eu ficar em um dos 3 lugares do pódio.

Quem é atleta no Brasil deve saber o que um atleta passa. Atleta aqui precisa empreender sua própria carreira como atleta, mas fui ganhando os campeonatos, participando de uns campeonatos que valia prêmio em dinheiro e concorri para a bolsa atleta local. Foi assim que consegui pagar algumas contas, mas mesmo assim as despesas eram maiores que as receitas.

Partilhava um kitinet com 4 pessoas, mas houve momentos em que éramos 8. Mas mesmo juntando a renda de todos não conseguíamos pagar energia e aluguel até que recebemos carta de despejo. A solução foi enviarmos carta para tudo quanto é entidade no Brasil e em São Tomé e Príncipe até conseguirmos uma ajuda de custo.

Consegui levar o curso e fundei o club de karatê da universidade e participando de campeonatos de alto nível tanto nacional como internacional, onde pude conhecer vários países até me formar em gestão de empresas privadas.

Depois chegou o momento de decidir: voltar ou ficar? Tinha uma economia que consegui fazer com os patrocínios e as bolsas que eu poupei. Durante o período acadêmico eu fiz muitos cursos, sobre educação financeira, investimentos em bolsa de valores, estágios, projetos de extensão, trabalhos acadêmicos tudo voltado para negócio, participei de vários treinamentos de empresa de marketing multinível.

Terminei a faculdade, precisava de continuar a sustentar os meus filhos e para conseguir trabalho o padrão normalmente é enviar o currículo para as empresas. Foi o que fiz. Uma vez em uma entrevista de emprego comecei a fazer perguntas simples de gestão ao dono da empresa (a empresa tem plano de cargo e salário? Quais são os valores que norteiam os colaboradores?). As respostas do empresário foram evasivas.

Eu percebi que as empresas têm mais trabalho que emprego, e decidi buscar trabalho e não emprego. Desenvolvi um modelo de prospecção de clientes.   Fui ao google e escrevi “empresas de Brasília” e aparecia uma série de empresas, depois filtrava por segmento e pegava contato, pesquisava por maiores dificuldades que empresas deste segmento tinham e ligava. Anunciava-me as atendentes como Dekker de São Tomé e Príncipe (eu tinha sotaque de estrangeiro) e os caras pensavam que era alguém importante por ser estrangeiro com certo cargo de relevância. E sempre que solicitava para falar com o responsável da empresa elas passavam para o chefe ou me passavam o contato do chefe. Agendava reunião dizendo que eu era um especialista em resolver os problemas que normalmente a empresa do segmento dele tinha. Na reunião quando me perguntavam por empresas para as quais já tinha prestado serviço eu respondia que tinha feito muito trabalho acadêmico em tal empresa e tive boa nota e ótimos resultados. Os empresários não fechavam contrato comigo, fui insistindo na estratégia vendo vídeos de venda até que conheci um empreendedor que me deu oportunidade, mas ele quis fazer permuta, naquela altura comecei a trabalhar em troca de pizza, e em alguns casos, de graça para formar uma carteira de clientes com resultados consideráveis. E assim, fui resolvendo os problemas dos clientes consegui fazer um MBA em gestão estratégica de organizações com ênfase em Balanced Scorecard. Como eu pegava os trabalhos e levava para casa acabei tendo a ideia de criar um Departamento autônomo onde resolvia os problemas nas áreas financeiras das empresas, processos, marketing e gestão de recursos humanos. Tenho um sócio, uma equipe e um banco de especialistas que trabalham sobre demanda dos projetos.

Dekker Jordão Baptista

STP Digital – Porque decidiu ficar no Brasil?

É difícil ser o melhor do mundo sem estar onde estão alguns dos melhores do mundo ou mesmo competir e vencer os melhores. O mestre Bruce Lee já dizia, “seja como água, não discuta com seus obstáculos”. Eu sempre sonhei grande, pois sonhar grande ou sonhar pequeno dá o mesmo trabalho, e vi no Brasil um dos ecossistemas para auxiliar a realização dos meus objetivos.

Eu já fui assaltado à mão armada aqui. Levaram o meu carro. A pior sensação que tive foi ter uma arma aponta. Sentir que sua vida está na mão de alguém que você não conhece, mas mesmo assim preferi adotar esse país como minha segunda casa.

STP Digital – Em que consiste exatamente a missão da Daexe?

Dekker – DAEXE é um acrônimo que significa Departamento de Assessoria Executiva. Os nossos clientes nos reconhecem como uma empresa excelente em elaborar o planejamento estratégico e sublime em auxilia-los na execução desse planejamento com o método BSC.

Nós atuamos de forma balanceada nas áreas de Capital Humano (rh) – deixando os funcionários mais felizes, Marketing – aumentando e fidelizando os clientes, Processos – deixando-os mais simples e Finanças – otimizando os recursos. Cada uma dessas áreas possui um especialista dedicado a dar o seu melhor para os nossos clientes.

STP Digital – Está há 8 anos no mercado brasileiro. Como tem sido?

Tem sido um sucesso ainda modesto. Empreender no Brasil é muito desafiador é como lutar para matar 10 leões por dia, mas quanto mais difícil for a batalha, mais saborosa será a vitória. Eu costumo brincar com os meus amigos que o Brasil é uma bagunça bem organizada, onde as coisas acontecem, pode até tardar mais você colherá tudo que plantaste. Hoje estamos finalizando alguns ajustes para atender fora do Brasil de forma virtual.

STP Digital – Já foi vítima de discriminação por causa da cor da sua pele?

Já sim. Aqui no Brasil já fui vítima de discriminação por causa da cor da pele e por ser africano. É só mais um leão que você tem que matar. Mas não deixo isso abalar as minhas emoções, busco ver sempre o lado positivo das coisas.

STP Digital – Quem são os seus clientes?

Tenho clientes desde a barraquinha de cachorro quente até multinacionais. Operadora de telefonia, empresas de construção, pet shop, clínica de estética, restaurantes, empresas de eventos, padarias, dentre outras. Como nascemos em Brasília, onde a maioria das empresas são prestadoras de serviços acabamos por ter na nossa carteira de clientes, na sua maioria, empresas de segmento de serviço, mas também atendemos segmento de varejo e indústria.

STP Digital – Quantas pessoas emprega?

A maioria nós contratamos por projetos. Tenho colegas que já estão em São Tomé que contratamos para executar trabalhos de forma remota e online. Diretamente temos e só precisamos de 4 pessoas. 

Dekker Jordão Baptista

STP Digital – De que mais sente saudades de São Tomé e Príncipe?

Sinto saudades de um pouco de tudo, não consigo falar de algo específico.

STP Digital – Tem acompanhado as notícias do país? Que leitura faz da atual crise potíco-social e económica que o país atravessa?

Infelizmente, não tenho acompanhado. Mas crise é sinal que existe oportunidade. Eu costumo brincar com meus clientes quando esse assunto vem à tona que se tirarmos a letra “S” da palavra CRISE ficará CRIE. É nisso que temos que focar sempre que estivermos em momento de crise. Focar em inovar ou criar algo novo ou melhorar o que já existe. Segundo Einsten, “não podemos querer que as coisas mudem, se sempre fazemos o mesmo” – O gênio chama isso de Insanidade.” A crise é a maior benção que pode acontecer as pessoas e aos países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia assim como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem os inventos, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise se supera a si mesmo sem ter sido superado.

Minha sugestão para não sermos um país insano, segundo o gênio Einsten, é criar um ecossistema para fomentar o empreendedorismo e inovação semelhante ao Vale do Silício nos EUA, fazer as pessoas criarem riqueza, valor para o país e para o mundo. O país precisa é de mais pessoas ricas, empresas bem-sucedidas nacional e internacionalmente, assim pagarão mais impostos e espera-se que o governo cumpra o seu dever. O foco tem que ser sempre no setor produtivo que ao meu ver, até com um certo desconhecimento da realidade, está sucateado e mergulhado em uma crise muito profunda.

 

STP Digital – Há quem diga que o país vive em crise desde a Independência. Concorda? Porquê?

Concordo! Então posso dizer que já nasci na crise, ainda não vi crises piores que passam alguns países africanos. Acho até que são permanentes se continuarmos fazendo a mesma coisa e esperar resultado diferente. O país é muito dependente de ajuda externa até mesmo para pagar salários dos funcionários públicos. Outra coisa insana.

Creio que desde a independência o país não teve gestão só teve políticas. Quando falo de gestão, estou falando de sonho grande, desdobrados em objetivos claros, por sua vez, desdobrados em metas SMART, indicadores de desempenho e um plano de ação.

Metas SMART – são metas construídas de forma a se considerar 5 atributos: S (Específico), M (Mensurável), A (Atingível), R (Relevante)e T (Temporal – com início e fim).

Gestão é correr atrás e superar metas. Se você não tem meta, você pode estar fazendo qualquer outra coisa menos Gestão.

É importante ter políticas, ter estratégias e excelentes ideias. Mas não adiantar ter tudo isso e não executar, sem ter pessoas ou políticos com alta capacidade de transformar as ideias em realidade, não importa o quão é o tamanho do obstáculo.

Em algumas sessões de mentoria eu sempre digo não a nada mais ineficiente que ter uma boa ideia ou um sonho grande sem uma equipe com capacidade de execução. Saliento que para executar temos que ter e valorizar mais as pessoas.

Arrisco aqui comentar que desde a independência ainda não percebi um superávit em São Tomé e Príncipe, ou seja, não conseguimos fazer o básico que é ter as receitas maiores que as despesas.

O mundo vai nos respeitar, os investidores vão nos amar se conseguimos ser eficientes, com alta capacidade de execução.

Na verdade, desde a independência que estamos sonhando, estamos dormindo, o sonho só se torna realidade quando você acorda e vai colocar a mão na massa.

Outro Diagnóstico que faço consiste no seguinte: o nosso resultado atual é a consequência da ausência de investimento que todos os países do primeiro mundo e empresas líderes do seu setor fizeram. Investir em Pessoas, Tecnologia e Infraestrutura.

Sendo assim vou sintetizar isso em 3 regras obvias infalíveis para desenvolvimento de qualquer instituição, sendo elas Países, Igrejas, ONGs, Empresas, Família, Pessoa física etc. O problema é que todo mundo sabe, mas não executa.

  1. Receita tem que ser maior que as Despesas.
  2. Investir sem medo em Pessoas, Infraestrutura e Tecnologia.
  3. Nunca negligencie as duas primeiras regras.

Quando conseguirmos executar isso seremos o melhor país do mundo ou estaremos na direção certa. Eu acredito que a direção é mais importante que a velocidade.

 

STP Digital – Que conselho daria aos jovens empreendedores sãotomenses?

  1. Acompanhe o blog daexe.com.br e curta as páginas da Daexe nas redes sociais, lá tem muitas dicas e soluções de alto impacto que melhoraram vida de muitos empreendedores no Brasil e com certeza vai melhorar a sua.
  2. Sonhe grande (Sonhar grande ou pequeno dá o mesmo trabalho), comece pequeno (Execute o mínimo viável possível agora) e cresça rápido.
  3. Invista no seu autodesenvolvimento contínuo e dos seus colaboradores.
  4. Domine gestão financeira, gestão de marketing e vendas, gestão de pessoas e gestão de tempo.
  5. Se algo deu errado, em vez de olhar pela janela e procurar o culpado, olhe para o espelho, lá estará o culpado e procure ver onde errou. O que está de fora pode até ser muito importante, mas você não pode controlar.
  6. O sucesso é um péssimo professor ele nos faz acreditar que nunca iremos falhar.
  7. TENHA FÉ, NUNCA DESISTA.

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