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Anastacia Carvalho: A mulher que vive da musica e do amor a STP

 Em entrevista exclusiva ao STP Digital, Anastácia fala sobre as suas raízes sãotomenses, sobre as suas influências musicais e sobre o seu álbum de estreia. Confira.

Nasceu em Luanda (Angola) ao terceiro dia do mês de Dezembro do ano 1976. Filha de pais sãotomenses, passou grande parte da sua infância e adolescência entre Luanda, São Tomé e Lisboa. “Posso considerar que tive uma infância rica em experiências e consciente naquilo que diz respeito a viver a realidade das coisas, uma vez que tive 3 culturas diferentes.”

As suas raízes sãotomenses são fortes. Os seus pais sempre fizeram questão de incluir no ambiente familiar a cultura de São Tomé e Príncipe, onde quer que estivessem. “Ouvíamos a língua fôrro em casa, ouvíamos músicas e comíamos pratos típicos de São Tomé e Príncipe. Sempre convivemos com sãotomenses!”

Anastácia também viveu nas ilhas maravilhosas. “Lavei muita roupa no Rio Mé-Zóchi!” (risos) Fez a primeira classe na Escola Primária de Bombom e a preparatória na Escola Patrice Lumumba.

Anastácia Carvalho

“Saudade”

Lançou o seu primeiro single “Saudade” no dia 14 de Março de 2018. O tema é cantado em forro, porque um dos seus objetivos é introduzir as línguas de São Tomé e Príncipe em estilos musicais diferentes. Anastácia diz que este tema “fala da saudade, não como um sentimento negativo, apesar de um certo desconforto que a saudade às vezes traz, o que prevalece é o aspeto positivo que nos leva a retirar boas lembranças de uma vivência que já passou e que gostaríamos de reviver”.

 A cantora ainda está a gravar o seu primeiro álbum, mas confessa que está muito ansiosa. “Tenho noção de que as coisas acontecem no seu tempo certo. Vou fazendo a minha parte, que é ir gravando e aguardando pacientemente pelo dia!”

Um álbum cheio de promessas, o público poderá esperar composições originais da Anastácia e versões de músicas de alguns grupos musicais de São Tomé e Príncipe. “Terei participações de músicos de outras culturas, como Portugal e Angola, mas não vou adiantar nomes, pois quero que se mantenha o efeito surpresa.”

Anastácia tem a música no seu ADN. “A minha avó materna cantava num grupo de Bulauê (penso que no grupo Esperança, não me lembro do nome que a avó dizia). Os meus tios maternos também tiveram experiências musicais na juventude.”

O seu pai tocava rabeca em conjuntos musicais em São Tomé e Príncipe. “Ele tinha paixão pela música, acho que não continuou devido às circunstâncias da vida. A minha mãe e os meus tios também têm paixão pela música.”

Desde criança sempre gostou e ouvia música. “Em São Tomé lembro-me que cantava imenso no rio quando ia lavar roupa, ou mesmo, em casa. Mas não era apenas gostar, era mais do que isso, era algo com que me identificava.”

A sua primeira criação musical foi em São Tomé quando tinha cerca de 11 anos. “Numa daquelas brincadeiras de quintal, em que com os nossos primos tocávamos e dançávamos puíta, bulauê. Era fantástico! Brincava com os meus primos Leandro, Inácio, Mimi. Alguidares, bidões (os famosos bules) e as fitas de vassoura eram os instrumentos (claro que quem ficava no prejuízo era a minha avó).” (risos)

“Numa dessas brincadeiras cantei uma frase para o ritmo que os primos estavam a fazer: “Xi bô bé dálá, bô cá fadá men mu, um bé um bí zá êê” (Se passares por lá diz a minha mãe que fui e já voltei). Lembro-me da minha prima me ter perguntado onde é que tinha ouvido isso e de lhe ter respondido: “eu é que inventei”. Isso tudo no meio do pó todo que se levantava no quintal com tanta dança!” (risos)

Quando tinha cerca de 13 anos, a sua escola em São Tomé recebeu um professor de música. “Claro, que inscrevi-me logo! Ainda fui a uma aula, não voltei porque as aulas iam acontecer aos sábados e eu teria que ir sozinha à escola. Durante a semana ia sempre acompanhada pelos primos e irmão. Infelizmente, a minha avó não achou que fosse boa ideia. Teve receio e disse: “mina muála na cá ndá no stláda êlê tan fá” (meninas não andam na estrada sozinhas).

Mais tarde, já em Portugal, antes de estar profissionalmente ligada a música, Anastácia cantava no coro da igreja e queria tanto aprender música que procurou absorver mais sobre instrumentos musicais.

Anastácia Carvalho

Música é vida!

Ao contrário da maior parte dos músicos sãotomenses, Anastácia vive apenas do que mais ama fazer: música. Começou a cantar em grupos corais de música Gospel em 1999. Depois, para além dos grupos corais, passou a acompanhar bandas como back vocal. Nomes como Bonga, Tabank Jazz, Rui Veloso constam do seu currículo.

Em 2013, começou a cantar com um projeto a solo. Hoje em dia, continua a investir cada vez mais numa carreira a solo e também como Maestrina, já que tem dirigido grupos corais. “Sempre que possível, vou fazendo formações na área da música, tais como aulas de canto, composição, direção musical, aulas de guitarra, de piano, com o intuito de crescer, aprender e dar de volta”, diz Anastácia.

Nas suas veias musicais correm desde ritmos africanos a gospel, jazz, reggae, pop, espiritual negro, fado, música clássica, etc. “Houve um período que sabia que queria cantar, mas não sabia ao certo qual o caminho. Hoje em dia, essa questão já está mais clara, para fazer a minha música tenho que ser o mais honesta possível comigo mesma e criar algo que se identifique comigo. O que faço é o estilo musical de fusão entre as minhas várias influências, sem desvirtuar nenhuma delas. E manter como referência fundamental e de base a minha raiz africana”, afirma a cantora. 

Anastácia é mãe de dois meninos: um de 6 anos e outro de 8. Neste momento dedica-se a eles e a sua carreira. A cantora confidenciou-nos ainda que o seu coração está livre. Perguntamos-lhe o que lhe vem a mente quando pensa em São Tomé e Príncipe. “Coisas boas, saudades, o cheiro da terra, o mistério e curiosidade que se instalavam na minha cabeça porque nunca sabia o que ia encontrar depois de uma curva, sempre que viajava para as roças. O som típico das galinhas ao amanhecer, os galos que cantavam de madrugada. O som da chuva nas folhas das árvores! Pequenos grandes registos que ficaram gravados na memória de infância”.

Anastácia anseia por brindar o público sãotomense com um concerto seu. Para já, não tem nenhum espetáculo agendado no nosso país. Mas em 2016, teve a sua primeira experiência a nível profissional em São Tomé e Príncipe no concerto de Rui Veloso, músico português com quem trabalha. “Fomos à convite da Embaixada de Portugal pela comemoração do dia 10 de Junho! Neste concerto, o Rui Veloso deu-me a oportunidade de partilhar um dos meus temas “Bámu dá mon”, com o público sãotomense e português que nos assistia.”

Experiência da qual Anastácia jamais se esquecerá e que descreve como “excelente”. “Uma surpresa para o público, pois ninguém estava à espera que a banda do Rui Veloso e ele próprio fossem tocar e cantar um tema em forro”.

Para a cantora foi um dia de muita alegria, a realização de um sonho. “Vi-me ali, aquela “miudinha” pequenina que cantava no rio ou enquanto fazia as lides domésticas, de repente, a cantar num palco, as pessoas a ouvirem e a cantarem a minha música. Foi muito emocionante! Significou muito para mim. Ficarei eternamente grata ao Rui Veloso pela experiência.”

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