×

Secções

Empresa

Idiomas

Ambiente Ciência São Tomé e Príncipe

O papel dos pântanos no equilíbrio geoclimático e o caso de STP

Imagem: (Reprodução @Odisseia nos mares e terras)

Os pântanos – são áreas planas de abundantes vegetações herbáceas e ou arbustivas, que permanecem grande parte de tempo inundadas. Regra geral, os pântanos surgem geralmente em áreas onde o escoamento das águas é lento. Nestas circunstâncias as massas orgânicas presentes nas águas se decompõem no próprio local.

A ciência que estuda os pântanos é a limnologia. A origem do termo pântano está associada ao nome de um lago da Apúlia, na Itália, chamado Pântanu (actualmente o Lago chama-se Lesina).

O pântano também pode ser chamado de charneca, marmel, palude, podoçal, alagadiço, mangal, mangrove, mangue e manguezal. Geralmente, os pântanos estão localizados na parte inferior dos rios e em zonas litorais, como também podem ocorrer nos cursos alto e médio dos rios.

Estes podem ser de águas doce ou salgada. Os de água doce estão nas beiras pouco profundas de lagos e rios de águas calmas e aparecem na medida em que lagoas e lagos são preenchidos por sedimentos.

No que concerne aos pântanos de água salgada, estes existem nas planícies inundadas pelas marés nas zonas costeiras. Os pântanos salgados podem estar situados longe do mar, assim como localizados ao redor dos lagos ou lagoas de água salgada ou salobra. A sua natureza, quanto a composição vegetal é a diversidade de espécies e está fortemente influenciada pela relação com ecossistemas mais próximos. Estes determinam a quantidade de nutrientes que chegam, o movimento da água e o tipo e a quantidade de sedimentos depositados. O endemismo é uma característica dos pântanos quanto a sua vegetação e fauna. As plantas deste ecossistema são hidrófilas pois toleram grande quantidade de água, mas também podem sobreviver em solos com pouco oxigénio. Cerca de 97 % da massa dos pântanos são constituídos por água. A abundância biológica dos mesmos é característica, embora com poucas espécies de flora e fauna.

São raras as plantas que alcançam enormes tamanhos. A rica vegetação do pantanal é submersa, sendo respectivamente algas e bactérias. Algumas plantas especializadas a estes locais são nenúfares, e outras enraizadas como o lírio d´água doce.

A fauna nestas águas é constituída por espécies de répteis como crocodilos, serpentes, caranguejos, cucumba de água e anfíbios como rãs, sapos cágados e outras.

Este ecossistema é caracterizado por aves especializadas em alimentarem-se e construírem ninhos nestes ambientes sendo os flamingos, garças, cegonhas, principalmente, e outras de menores portes como alcedo cristatanais (nome científico dado as conóbias).

Os pântanos constituem uma das armas mais poderosas contra o aquecimento global. Só o seu crescimento seria suficiente para reduzir as emissões de Co2 (dióxido de carbono para 100 milhões de toneladas /ano a meta de Protocolo de Kyoto.

Imagem: (Reprodução @Odisseia nos mares e terras)

“Segundo os peritos em matéria de limnologia, “infelizmente as pessoas não têm consciência sobre a importância dos pântanos no combate do aquecimento global”, lamenta Jonh Couwenberg, pesquisador da universidade de Gerifswald, na Alemanha. Embora os pântanos correspondem somente 3% da superfície terrestre, eles têm um papel importante no ajuste da temperatura do planeta, pois capturam mais gás carbónico do que todas as florestas juntas.

As áreas pantanosas estão localizadas principalmente, nas regiões frias das zonas boreais entre latitudes de 50º – 70º do hemisfério norte assim como baixas latitudes do equador e dos trópicos.

A República Federativa da Rússia abriga mais de 1/5 dos pântanos de todo o mundo. Outras grandes regiões pantanosas existem no Canadá, EUA, a bacia de Amazonas na América do Sul e o Sudoeste Asiático. No Continente Africano, segundo Couwenberg, estima-se significativas áreas pantanosas, principalmente, na Bacia do Congo, no Delta do Níger (Lagos e Abidjan).

Um aspecto particular precedentemente mencionado é que devido a falta do oxigénio de baixo de águas as plantas mortas decompõem-se mais lentamente do que as que crescem por cima da água. Nestas condições formam-se as turfas (material parcialmente decomposto, ou estádio inicial do carvão mineral).

Estes elementos em decomposição absorvem o gás carbónico armazenado nas plantas. As turfeiras que são solos formados pelas turfas crescem em média 1mm/ano e retêm até 250 milhões de toneladas de Co2.

Com o sedentarismo humano, o crescimento da população, a prática intensiva da agricultura, a industrialização e urbanização, surgiram novos problemas para os pântanos, com as degradações e drenagens dos mesmos.

Há séculos, os seres humanos tem vindo a degradar e drenar pântanos para dar lugar à terras cultiváveis ou para extrair material para construção ou combustíveis através dessas drenagens. As turfas começam a se decompor e libertam Co2 (dióxido de carbono que haviam absorvido) “e assim os armazenados acabam por se transformar em disseminadores de gás carbónico”, explica Jonh Cowerberg que em todo o mundo cerca de 10% dos pântanos foram degradados e drenados.

Tendo, o planeta Terra 510 milhões de Km2 e cerca 2/3 do mesmos serem ocupados pelos oceanos, que correspondem 340 milhões de km2, restam somente 170 milhões de terras emersas. Os 17 milhões de km2 correspondem aos 10% de pântanos já drenados no mundo, e os mesmos emitem 2 milhões de toneladas de gás carbónico, visto que as turfeiras são decompostas de microorganismos.

Existe uma dualidade neste fenómeno, pois diferente do que acontece com a desflorestação ou desmatamento das árvores, as emissões de gases causadores de efeitos de estufa nos pântanos drenados não acontecem apenas uma vez, mas durante todo o tempo em que a turfa se decompõe. Dependendo da turfeira, esse processo poderá durar séculos.

Nos últimos 20 anos a emissão de gás carbónico causada pela drenagem dos pântanos cresceu em 20% em grande parte dos países em desenvolvimento e São Tomé e Príncipe não foge a regra. Como exemplo, mais realista da degradação pantanal temos a Indonésia muito extensa, onde grandes florestas de turfeira foram drenadas para o cultivo de óleo de palma, arrozal ou aloé vera.

Para além da decomposição das turfeiras, as queimadas nos pântanos que ocorrem facilmente na turfa seca fazem da Indonésia o maior emissor de gás carbónico provindo da drenagem dos pântanos.

Considerando tais factos apresentados, isto tem levado muitos países a terem um reconhecimento do significado dos pântanos para o clima do planeta e começaram a restaurar suas áreas pantanosas. Países de grandes dimensões como a República da Bielorrússia, os Estados Unidos da América, Canadá, Alemanha e Rússia, têm elaborado projectos para a solução deste problema.

A Rússia como maior país do mundo e com grandes áreas pantanosas, tem protegido, cerca de 50 hectares de regiões dos pântanos. Que métodos de recuperação têm sido usados?

Para a recuperar um pântano, basta preencher as valas de drenagem, segundo a professora Vera Luthardt da Sociedade Alemã de Estudos de Turfas. “Plantas nativas, como juncos, caniços e musgos, voltam a crescer normalmente depois de 2 anos”. O tempo de vida para o crescimento da turfa é em cerca de 15 anos.

De modo a manter o efeito protector dos pântanos no futuro, de acordo com a pesquisadora, é importante buscar alternativas para o uso do solo. A protecção deste ecossistema não descarta o seu uso económico. Pois os juncos que crescem nestas áreas, podem ser um exemplo a servir como fonte de energia biomassa. “Existem aplicações suficientes para os pântanos e também, já existe tecnologia disponível. O problema está na execução e na vontade dos políticos. São problemas que precisam de ser resolvidos rapidamente já que as turfas drenadas libertam mais gás carbónico por ano do que as emissões causadas pelo trânsito em todo mundo”, disse Luthardt.

São Tomé e Príncipe, estado insular da África, com 1001 Km2, não foge a regra da degradação e da drenagem dos pântanos.

Sendo estas ilhas de origem vulcânica, situadas nas latitudes 0º -1º respectivamente, no hemisfério norte para as ilhas de São Tomé e Príncipe, e 0º Sul para o ilhéu das Rolas, a degradação dos pântanos tem sido acelerada baseada na solução dos problemas de Erradicação do Paludismo, Urbanização e áreas para cultivo.

Na década de 1980 foram executados os programas para a Erradicação do Paludismo sendo esta endemia quase a ser abolida, mais por razões desconhecidas estes não foram concluídos, verificando-se assim uma nova onda de proliferação desta doença em grande escala nas décadas posteriores.

Naquela altura nenhum pântano, fora drenado, e não tomaram como álibi este ecossistema como criador de mosquitos.

Até a primeira metade do século XX, o litoral e o interior destas Ilhas estavam recheados por uma imensidade de pântanos. Mas a partir das décadas 40/50 deste século, começaram a inverter a situação. Retirando as drenagens realizadas nas primeiras etapas do século passado, e de acordo com os estudos feitos para a “Elaboração do Plano Director dos Pântanos e Plano de Gestão dos Resíduos Sólidos de São Tomé e Príncipe, -2004, em São Tomé existiam 50 pântanos repartidos geograficamente como se segue: 10 no distrito de Água-Grande,16 no distrito de Lobata, 7 no distrito de Lembá, 9 no distrito de Cantagalo, e 2 no distrito de Caué.

Mas segundo consta os estudos de dados oficiais recolhidos eram 36 o número destes, visto que alguns dos mesmos são temporários ou sazonais, sendo 6 que são objectos de drenagem de acordo com as informações obtidas na altura.

A superfície total dos pântanos, na ilha de São Tomé era de 402002 metros quadrados equivalente a 0,4Km2, sendo a distribuição relativa a seguinte: o distrito de Água-Grande – 8550m2, Lobata – 104205m2, Lembá -115557m2, Cantagalo -116500 m2, Mé-Zóchi -150600 m2 e Caué -10500 m2.

Os mais importantes são os de Morro Peixe, Micoló, Praia Melão, Água Izé, Ribeira Afonso, Angra Toldo, Iô Grande e laguna Malanza. As zonas drenadas e húmidas na cidade de São Tomé na ocasião dos estudos foram: Sucata, Estádio Nacional 12 de Julho, Praia Cruz, Água Palito, Maria Emília e Vila Maria.

Na Região Autónoma do Príncipe a superfície total é de 38059 m2. A sua superfície relativa é distribuída da seguinte forma: Água Senhor Padre – 879 m2, Mé-Fidel – 15523 m2, Lenta-Pica – 6536 m2, Budo-Budo – 3750 m2, Porto Real – 5850 m2 e Praia das Burras – 6400 m2 o equivalente em cerca de 0,04Km2.

Nesta segunda década do século XXI, ainda existe uma ideia antiquada e errónea, em que consideramos os pântanos extremamente prejudiciais para a humanidade e uma necessidade premente para sua degradação e drenagem parecendo ser a via mais exequível para atingir-se o clímax da erradicação do paludismo, doença esta de mais de 5 séculos nas nossas ilhas.

É nesta base que muitos destes ecossistemas têm sido sucumbidos antropogenicamente no nosso país, como condição “sine qua non”, para a extinção desta endemia. Embora muitos de nós pensarmos desta prevalecente forma incorrecta nos nossos dias deste enigma, os pântanos possuem uma importância soberanamente ecológica na protecção do meio ambiente. Estando, os mesmos de alguma forma em eminente perigo, deveríamos ter a noção de recuperação e os que se encontram saudáveis devem ser protegidos em prol de um equilíbrio da Hidrosfera, Atmosfera e o Clima. Necessário se torna a construção de áreas pantanosas, que servirão para a harmonização ecológica das águas superficiais e subterrâneas, visto que estes são agentes reguladores dos caudais hidrológicos.

Um caso muito relevante é o da Água de Santo André vulgarmente conhecido por Água Marçal, cujo caudal nas décadas de 70/80 do século XX era muito reduzido e com o aparecimento da laguna da pedreira de Palmar aumentou consideravelmente.

Baseando-se hipoteticamente na diminuição da pluviosidade e aumento de temperatura, como tem sido dito nos distritos de Água-Grande, Lobata e Lembá, eis a drenagem dos pântanos como uma das possíveis consequências, a não ser descartada na variação destes 2 elementos do clima nestas regiões.

Neste contexto a geologia e educação ambientais têm grande dívida para com a sociedade, visto que os ensinamentos parecem estar restritos aos profissionais e pesquisadores, mas sem a sensibilização da sociedade. Embora a professora Vera Lutherford tenha dito “O problema está na execução e vontade dos políticos”, reconhecemos que a educação ambiental deverá ser o pilar para a execução destas políticas baseadas na sensibilização e adopção de mecanismos de ensinamentos, na classe dirigente, nas escolas básicas, secundárias e superiores, introduzindo planos curriculares sobre este tema em São Tomé e Príncipe.

Muitas opiniões poderão ser adversas a tais informações referentes a recuperação e construção de novas áreas pantanais ignoradas por muitos, como cobaias de mosquitos e outros insectos, que poderão pôr em causa o Plano de Erradicação do Paludismo em STP, visto que nos encontramos numa fase bastante avançada.

A protecção biológica deve continuar a ser praticada no intuito da defesa deste factor das águas superficiais. Nas décadas 50/ 60 do século passado, fora introduzido no ecossistema pantanal e rios de São Tomé e Príncipe, espécies aquáticas heterotróficas, cujo objectivo era de se alimentarem das larvas dos mosquitos.

Estas espécies, de água doce foram as Tilapia cilídeos pertencentes a subfamília Pseudorenilabrine que é vulgarmente conhecida por “Papê” em São Tomé e Príncipe. Este género (Tilapia) tem um excelente controlo biológico na infestação de plantas aquáticas, assim como consomem algumas algas fibrosas e ovos de mosquitos.

Para isso a não valorização dos pântanos constitui um eminente perigo para o nosso ecossistema nacional. Nesta perspectiva, é fulcral primarmos pela salvaguarda deste factor geoclimático.

“Hoje ao nível mundial assiste-se a crescente extinção de espécies da fauna e flora, o que traduz uma perda incalculável do património genético e a delapidação dos recursos geológicos do planeta. Consideramos imprescindível a tomada de medidas com vista a conservação da biodiversidade e geodiversidade. Pensamos que um mundo mais justo, pacífico e ecológico, só será possível através do contributo de todas as pessoas e não apenas de técnicos ou especialistas. Defendemos uma nova relação do homem com o meio ambiente, assegurando que todos os recursos estejam equitativamente repartidos entre todas as pessoas, tanto as do norte como as do sul não esquecendo-se a geração vindoura”.

Termino a minha exposição com duas ilustres frases de Albert Einstein:

Somos todos muito ignorantes, mas nem todos ignoramos as mesmas coisas”.

Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado, mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado”.

 

Escrito por Luís Paquete d’Alva Teixeira

Encontrou algum erro neste artigo? Sugerir correção