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“São Tomé e Príncipe é um laboratório para os florestais” Meyer António | TEDxSãoTomé

O engenheiro florestal Meyer António nasceu no distrito de Lobata em 24 de agosto de 1979. Proteger as florestas é a sua grande paixão e missão. Como consultor internacional, professor e técnico florestal tem a responsabilidade de convencer as pessoas sobre a relevância de preservar as nossas florestas. Este ano António faz parte do painel de oradores do TEDxSãoTomé.

STP Digital – O que faz um engenheiro florestal? É um trabalho mais de gabinete ou de campo?

O engenheiro florestal avalia o funcionamento ou a dinâmica do ecossistema e propõe acções para gerir de forma sustentável os recursos existentes, sem comprometer esse funcionamento, dependendo da área em que se dedica (conservação, silvicultura, agro-florestal, ornitologia, geomática, etc.). Ele é formado para aproveitar os recursos florestais (lenhosos ou não lenhosos, os chamados PFNL), mas conservando as florestas e a sua dinâmica.

É um técnico que divide sessões de gabinete com o trabalho de campo, embora existam áreas em que fica mais no campo do que no escritório (silvicultores).

STP Digital – Como estão as florestas do nosso país?

Fazendo um voo pelo país, podemos dizer que temos superfície florestal suficiente e que está bem. Mas se a percorrermos, podemos ver que está se degradando, se compararmos a diversidade específica actual com a época anterior. Já são escassas as árvores de madeira de boa qualidade e algumas espécies podem estar ameaçadas. Só entre 2010 e 2015, perdemos o equivalente a 3% da nossa superfície florestal.

 STP Digital – Uma magnífica floresta deixou de existir para dar lugar a uma imensa plantação de palmeiras. O que pensa sobre o abate massivo de árvores que aconteceu em Ribeira Peixe?

O que aconteceu em Ribeira Peixe é o espelho do que acontece nas nossas florestas um pouco por todo o lado. Esse projecto é simplesmente um mau projecto para o país e a decisão de o promover, como se tem vindo a fazer, deve ser por desconhecimento da importância das florestas e da sua valorização económica ou mesmo por outros motivos. Muitas questões não foram respeitadas antes da implementação desse projecto, incluindo o não respeito da lei florestal e do estudo de impacto ambiental. Agora a Agripalma tem uma nova filosofia e esperemos que possa contribuir para mitigar os impactos negativos. Um dos impactos é o abate ilegal de árvores que aumenta cada dia nas áreas circundantes a empresa.

STP Digital –  Qual é o impacto para nós?

Como já muitos investigadores têm dito, São Tomé e Príncipe é um laboratório para os florestais, biólogos, naturalistas, turistas e a população em geral. Só o facto de termos num pequeno espaço de 1000 km2 quase todas as tipologias de formações vegetais existentes na zona tropical, temos as 3 florestais mais importantes do mundo para a avifauna e sermos o país com a maior concentração de aves endémicas do mundo é qualquer coisa de extraordinária. No entanto, nós os sãotomenses temos uma relação somente utilitária com as florestas, pelo que só a valorizamos quando temos algo a retirar dela. Essa visão faz com que a maioria esteja indiferente a degradação que vem acontecendo nas nossas florestas.

As decisões são tomadas ao nível político, sem respeitar a valorização e a relação entre as comunidades e as florestas. Se continuar a degradação que se vem assistindo nas nossas florestas, perderemos todo esse património acima referido. Ademais, os nossos recursos hídricos, materiais de construção e muitos bens e serviços fornecidos pelas florestas diminuirão e isso terá um forte impacto no clima e na renda familiar e na economia do país. Ao destruirmos as florestas, estaremos diminuindo as nossas condições naturais de adaptação às mudanças climáticas e estaremos comprometendo a qualidade de vida das comunidades, assim como da produção agrícola e hídrica. Sem florestas as nossas vidas serão mais difíceis. No entanto, só daremos conta disso, quando já não as tivermos.

 STP Digital – Este ano será orador no TEDxSãoTomé. Que ideia irá apresentar?

Irei falar sobre as nossas florestas e o desconhecimento que temos dela. Tudo isso porque um dirigente uma vez disse: “Biodiversidade, biodiversidade para quê? A biodiversidade enche a barriga do povo?”. Por isso falarei sobre ela, como se estivéssemos sentados numa mesa comendo calulu, bebendo um bom vinho de palma e tendo izaquente como sobremesa. Só nesses pratos podemos ver a diversidade de plantas e florestas que podemos utilizar sem gastar dinheiro, basta sabermos observar e gerir de forma sustentável.

 STP Digital –  Se tivesse o poder de se teletransportar no tempo e no espaço, para onde iria? Porquê?

Acho que continuaria em São Tomé e Príncipe. Porque penso que sou um privilegiado por viver num país tão lindo e com tantas potencialidades. Penso também que posso fazer a diferença cá. Mas se me perguntasse no momento de frustração em que parte de São Tomé e Príncipe gostaria de estar, aí iria dizer que é no pico de São Tomé desfrutando da paisagem que só este nosso país pode oferecer.

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