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Gestão danosa na EMAE – um ciclo vicioso e inquebrável?

(Imagem: Reprodução Listamania)

São Tomé e Príncipe enfrenta há quase um ano uma crise energética, que piorou consideravelmente desde finais de setembro. A Empresa de Água e Eletricidade (EMAE) produz apenas 7 megawatts quando o país precisa de 20 megawatts. EMAE é sem dúvida umas das palavras mais utilizadas pelos sãotomenses nas redes sociais e não é pelos melhores motivos. São gritos de clara insatisfação de clientes que ficam dias e semanas sem água e eletricidade. O anterior diretor geral da Empresa de Água e Eletricidade, Mário Sousa, foi detido e é acusado de gestão danosa da coisa pública. A questão constante é: como solucionar este problema?

O gestor da Central Térmica Santo Amaro 2 da EMAE, Adérito Cravid, fala em “fazer diferente” no contexto do novo governo, a gerigonça sãotomense.

“Sempre tivémos uma direção geral da EMAE, apoiada por assessores da Energia, e da Água e diretores para o setor da água e para o setor da eletricidade.”

Continua : O facto de termos apenas um diretor da eletricidade, e hoje em dia, já temos no nosso país uma rede que já chega ao norte – Santa Catarina – e ao sul para São João dos Angolares, um setor de despacho organizado, já isto compõe um setor que deveria ser dirigido por uma entidade, que poderia ser a direção de rede e exploração. O setor de produção (centrais) deveria ter uma direção que se ocuparia com a organização das manutenções de rotina (12 mil horas) e manutenções grandes (40 mil horas). São manutenções que requerem planificações a longo prazo, o que deveria ser feito por um setor organizado, o que não acontecia.” Cravid defende ainda que o setor de manutenção deveria ter uma direção que respondesse perante a direção geral.

O engenheiro eletrotécnico disse ao STP Digital que uma das soluções para evitar a gestão danosa na  EMAE é a direção geral da empresa precisar da aprovação da maioria do Conselho de Direção para tomar decisões no âmbito da organização da empresa, de curto ou longo prazo.

“Um conselho que incluísse os diretores da Água, Exploração, Manutenção e de Produção, mais os assessores, de forma que o poder de decisão não ficasse apenas nas mãos do diretor geral. A má gestão é o resultado do poder totalitário”, – afirmou Cravid.

O engenheiro contou que as compras de peças para equipamentos da empresa eram feitas pelo próprio antigo diretor geral, Mário Sousa, mais a Direção Administrativa e Financeira. Segundo Cravid, o diretor nunca se fez acompanhar de um técnico nas compras. “Mesmo construções, coisas pequenas…

Por exemplo, eu mando fazer uma construção rápida: eu não tenho oficina, não tenho armazém, nem nada. Eu digo que preciso de um armazém: nada. {Eu disse: meus senhores, chegaram a minha central peças de seiscentos mil euros, está num contentor quente, vai estragar. Agora é preciso fazer desse contentor um armazém, no dia seguinte fizeram o armazém.} Mas quando eu digo que há necessidade de se fazer um armazém, eles não fazem.

Eles só fazem quando já não existe outra solução. Agora, quando fazem isso: é o diretor geral e o responsável da obra que sabem. Só recebo a fatura para assinar. Mais nada.”

O gestor da Central Térmica Santo Amaro 2 da EMAE denunciou também o esquema de manutenção dos geradores: “Nós temos geradores e técnicos formados na faculdade. Todas as empresas quando admitem um técnico, ele recebe formação na empresa e depois para o técnico adaptar-se a área em que a empresa trabalha vai se dando formação aos técnicos. Vou particularizar a minha central. Se nós compramos geradores novos, a empresa que vende faz o jogo comercial, que consiste em convidar técnicos da empresa que compra para formações.

E no nosso caso, o contrato tinha formações para 8 técnicos e isso custa dinheiro! A EMAE não deu formação a esses técnicos. A EMAE para comprar um projeto em português tem de comprar a uma empresa portuguesa. Então, a EMAE comprou o projeto da EFACEC, que como não tinha a valência mecânica vendeu essa parte a GRUPEL (outra empresa portuguesa). Só que a GRUPEL também para adquirir os geradores, vai comprar então a ABC, que é o fornecedor final. O que é que a GRUPEL faz?

Como os sãotomenses não aproveitaram a formação que a ABC deu, comprou os geradores e formou os seus técnicos. E quando temos que fazer manutenções (nós somos engenheiros sim, mas devemos ser especializados em ABC, compramos os geradores e precisávamos dessa especialização), como a EMAE não especializou os seus técnicos, a GRUPEL especializou um técnico dentro desse projeto e envia esse técnico para cá para fazer as manutenções. E nós pagamos caro por isso: 2 mil euros por dia! Quando formar um técnico da EMAE durante um mês na Alemanha custaria 3 mil euros. A empresa poderia ter apostado nisso.”

Cravid frisou que este tipo de coisas só acontecem porque o poder de decisão cabe apenas ao diretor geral.

Mas como funciona a EMAE?

Direção de rede e despacho (exploração)

A Rede

Adérito Cravid disse que a EMAE tem uma rede de média tensão e de distribuição que chega ao norte (Santa Catarina) e ao sul (até São João dos Angolares). Trata-se de uma rede aérea, que precisa sempre de revisões e de manutenções, o que absorve muito tempo e, por conseguinte, não deixa margem para a exploração (preocupação da direção de redes).

 O Despacho

Cravid afirmou que com a nova sala despacho a área precisará de técnicos habilitados para o serviço de exploração. “Engenheiros elétricos e outros, que precisarão de fazer a exploração da nossa rede com profissionalismo de forma a manter um serviço de qualidade aos nossos clientes. A nossa rede não é gerida automaticamente por despacho em toda a sua extensão, assim sendo, necessitará de uma equipa de eletricistas habilitados para intervirem nos postos de corte ou postos de transformação nos momentos de reposição (isso mostra o volume de trabalho). Resumindo, a rede e despacho deveriam ser apenas uma direção.”

Direção de produção: o que deveria ser

De acordo ao gestor da Central Térmica Santo Amaro 2 da EMAE, a direção de produção deveria ser composta por dois setores de manutenção, sendo a manutenção eléctrica e a manutenção mecânica. Os referidos setores trabalhariam em conjunto com as centrais planificando as grandes manutenções e as manutenções corretivas necessárias. “Todas as manutenções de rotina deverão ser geridas internamente por cada central e sempre com o conhecimento da referida direção. Na última direção geral a direção de produção deixou de funcionar.” – acrescentou o engenheiro.

O papel da DAF

A Direção Administrativa e Financeira (DAF) deve assegurar o planeamento financeiro e orçamental anual da EMAE, garantindo também os recursos necessários para que cada setor da empresa execute as suas funções. “Uma ferramenta determinante para a execução de trabalhos é o carro. No caso da rede, deslocação para os pontos que tiverem avarias; no caso de exploração (despacho), deslocação para o posto de transformação ou posto de corte para a execução de manobras para a exploração. E no caso da produção, há necessidade de carro para realização de rendições para os operadores, deslocação da equipa de manutenção e as deslocações necessárias dentro das necessidades das manutenções das centrais. Daí a necessidade da DAF, a organização de rotas organizadas: gestão e manutenção.” – disse Cravid.

Através de um comunicado de imprensa, a Procuradoria Geral da República disse que decorre um inquérito crime na Direção de Investigação e Ação Penal com o número 206/2018, cuja investigação o Ministério público coadjuvado pela Policia Judiciária e pela Policia Nacional realizaram um conjunto de buscas e apreensões em diversos locais públicos e privados. O caso EMAE envolve acusações pela prática de crimes de gestão danosa, peculato, corrupção ativa e passiva e abuso de poder.

Entretanto uma nova direção geral da EMAE liderada por Celestino Andrade já tomou posse. Será que é desta que se quebra o ciclo de gestão danosa na empresa que fornece energia e água aos sãotomenses?

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