Cultura História

A vitalidade das línguas crioulas de São Tomé e Príncipe

Museu Nacional
Desde meados do século XVI até o início do século XX: forro, angolar e lunguié, três línguas crioulas de base lexical portuguesa, eram as línguas dominantes nas ilhas de São Tomé e Príncipe. No entanto, a chegada massiva de trabalhadores estrangeiros a partir do final do século XIX mudou a realidade linguística do país.

O português foi adotado como lingua franca para facilitar a comunicação entre santomenses, contratados, e portugueses. Uma língua franca é uma língua que serve aos falantes de uma comunidade multilingue para poderem comunicar entre si. Por exemplo, podemos dizer que o inglés é a língua franca dos negócios internacionais no mundo ocidental. Em São Tomé e Príncipe, o uso do português como língua franca iniciou um processo de mudança de língua (language shift). Isso significa que pouco a pouco, o português tem substituído as línguas crioulas no dia a dia dos santomenses.




A mudança de língua é um processo pelo qual uma comunidade de fala (geralmente bilíngüe ou multilingue) em uma situação de contato gradualmente deixa de usar uma língua em favor de outra língua. Embora esse fenômeno possa estar associado ao extermínio de uma língua, não é necessariamente negativo.

Claro, o extermínio de uma língua por sí é negativo porque representa uma erosão do conhecimento humano, perda de herança cultural e falha na aquisição de uma compreensão global das capacidades cognitivas humanas (Harrison 2007).

Mas a mudança de língua também pode ser interpretada como um processo que responde à mudanças socioeconômicas, e a população (ou pelo menos uma parte dela) geralmente beneficia da mudança. Perder uma língua não implica necessariamente perder a identitade étnica, racial ou cultural, pois existem outros marcadores para cumprir esse papel (Mufwene 2017).

Com a independência de São Tomé e Príncipe em 1975, o português tornou-se um símbolo de unidade nacional e passou a ser mais difundido. A maior mobilidade social (em parte relacionada à imigração dos santomenses para Portugal), o acesso mais fácil à educação e aos meios de comunicação em português (por exemplo, televisão e Internet) e a ausência de políticas linguísticas em favor dos crioulos estão entre os fatores que desfavoreceram o uso dos crioulos nas ilhas.

Por conseguinte, os crioulos em São Tomé e Príncipe estão em perigo – na verdade, os três estão em graus de vitalidade diferentes. Segundo Ethnologue (2018), um website que oferece informações sobre 7 097 línguas do mundo, o forro está ameaçado, o angolar está vigoroso, e o lunguié está moribundo.

Tabela 1. Porcentagem de falantes por idiomas  (1981–2012).

Total população Português Forro Lunguié Angolar Caboverdiano
1981 96,661 62.6% 56.3% 1.6%
1991 117,504 80.8% 59.5% 1.3%
2001 137,599 99.3% 72.4% 2.4%
2012 173,015 98.4% 36.2% 1.0% 6.6% 8.5%
(Adatado de Gonçalves & Hagemeijer 2015:91 e INE 2012)

Na tabela 1, podemos ver um resumo dos resultados dos últimos censos. Observamos que o português é falado pela grande maioria da população, o forro ainda é falado por 36% da população (mas isso representa uma perda de falantes importante comparando com os resultados anteriores), o lung’ie está quase extinto, e o angolar tem um número baixo de falantes mas não está em perigo porque os angolares ainda usam o angolar (por enquanto – mas pode ser que isso mude).

O crioulo caboverdiano não é nativo de São Tomé e Príncipe, mas é falado por 9% da população. Esta língua é vigorosa e os Caboverdianos falam o seu crioulo com muito orgulho, mas não sabemos qual é o seu estatuto em São Tomé e Príncipe porque ainda não foi estudado por linguístas.

Segundo UNESCO (2009), tem mais de 2500 línguas ameaçadas no mundo hoje é dia. Estes dados são preocupantes.

Como fazer para não deixar uma língua morrer? Como fazer para prever a extinção do forro e do angolar? (Para o lunguié, a situação está mais complicada porque já não tem crianças que falam o lunguié como língua materna.

Mas há principenses e estrangeiros que têm feito um trabalho importante para documentar e valorizar o lunguié.) Vários elementos têm que ser tomado em consideração para manter a vitalidade de uma língua. Aqui estão três destes elementos chaves:

  1. 1) A transmissão intergeracional. Quando uma língua é transmitida de geração em geração, ela mantem-se viva. Quando tem um corte na transmissão da língua, por exemplo quando os pais proibem os filhos de falar uma língua, pode-se iniciar um processo de extinção da língua.
  2.  As atitudes linguísticas. A preservação, a promoção, ou o abandono de uma língua depende das atitudes linguísticas dos falantes. Isso quer dizer que se uma população considera a sua língua importante, símbolo de identidade nacional, e útil para comunicar com os países vizinhos (por exemplo), tem mais chance de ser falada e preservada do que se a população considera a sua língua atrasada, errada, e difícil de aprender.
  3.  O desenvolvimento de políticas linguísticas nacionais e educacionais. Para apoiar a preservação de uma língua, o governo pode estabelecer políticas que favorecem o uso desta língua. Foi isso que o governo do Quebec fez nos anos 1970 quando o francês estava ameaçado pela dominância do inglês, por exemplo.

Mas agora, quem são realmente os atores chaves na preservação de uma língua? São os falantes desta língua. São eles que decidem, à través das suas ações e escolhas do cotidiano, se a língua vai sobreviver ou não. Os linguístas podem ajudar, apoiar e trabalhar em colaboração com as comunidades que querem manter as suas línguas, mas esse trabalho não pode ser feito sem os falantes nativos.

Todos temos a responsabilidade de garantir que nenhuma língua desapareça e que todas as línguas do mundo sejam transmitidas de geração em geração.

 

REFERÊNCIAS

Ethnologue. 2018. Ethnologue: Languages of the World, 21st edition. Dallas, Texas: SIL International. http://www.ethnologue.com.

Gonçalves, Rita, e Tjerk Hagemeijer. 2015. O português num contexto multilingue: O caso de São Tomé e Príncipe. Revista Científica da Universidade Eduardo Mondlane 1(1):87-107.

Harrison, K. David. 2007. When Languages Die: The Extinction of the World’s Languages and the Erosion of Human Knowledge. Oxford: Oxford University Press.

Instituto Nacional de Estatística (INE). 2012. Resultados nacionais. IV Resenceamento geral da população e da habitação.http://www.ine.st/Documentacao/

Recenseamentos/2012/DDENRAP/Resultados%20Nacionais%20do%20IV%20RGPH%202012%20novo.pdf.

Mufwene, Salikoko. 2017. Language vitality: The weak theoretical underpinnings of what can be an exciting research area. Language 93(4):202-223.

UNESCO. 2009. https://www.unric.org/pt/actualidade/22252

Sobre o Autor

Marie-Eve Bouchard

Marie-Eve Bouchard é sociolinguista, formada na Universidade de Nova Iorque, e está agora afiliada com a Universidade de Estocolmo na Suécia. Seus principais interesses de pesquisa são as ideologias linguísticas, o contato linguístico, e a relação entre língua e identidade nacional. Nos últimos anos, ela tem estudado a variedade de português falado em São Tomé e Príncipe.

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