Cultura

Príncipe vai receber a I Bienal Cultural Transatlântica

Floripesfera

A I Bienal Cultural Transatlântica vai decorrer na Ilha do Príncipe, Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO, de 14 de Agosto a 14 de Setembro de 2019. Com o objectivo de promover, valorizar e dar visibilidade ao património cultural da Região Autónoma do Príncipe, durante quatro semanas a Bienal reunirá artistas e pensadores para reflectirem sobre diversas questões inerentes a cultura contemporânea e a sua reminiscência com o processo e a história da colonização portuguesa.

O mentor e director geral da I Bienal Cultural Transatlântica, o artista plástico Eduardo Malé, contou ao STP Digital que a ideia deste projecto surgiu numa das suas estadias ilha do Príncipe.

“Durante os meus passeios pelas ruas de Santo António deparei-me com os ensaios gerais para o Auto de Floripes infantil. É uma coisa que prende porque não estamos habituados a ver uma representação desta dimensão em plena luz do dia.”, contou Malé.

E assim, surgiram-lhe as primeiras ideias: “Primeiro, comecei a pensar na possibilidade de realizar uma exposição individual com trabalhos meus à volta do Auto de Floripes. Mas rapidamente me dei conta que uma exposição seria algo muito redutor. Uma exposição seria um acontecimento que decorreria num intervalo de tempo e seria efémero. E, passados 3 meses ninguém se lembraria. Comecei a pensar em algo que tivesse uma dimensão, quiçá, maior porque envolveria mais gente, envolveria os habitantes do Príncipe”, disse o mentor da Bienal.

Então surgiu-lhe a ideia da Bienal porque, na sua opinião, apesar de as bienais organizadas por João Carlos Silva terem sempre a intenção de incluir o Príncipe nunca correspondeu às expectativas. E, assim, decidiu encontrar pontos de convergência entre a arte, o folclore, e a exímia tradição cultural  –  Auto de Floripes.

Mais do que a abordagem histórica a I Bienal Cultural Transatlântica convocará também disciplinas das artes visuais como: pintura, escultura, fotografia, videografia, performances, design, mas também música e danças tradicionais e folclóricas e a gastronomia local.

No âmbito das actividades artísticas serão desenvolvidas oficinas e ateliês de formação para jovens e crianças mas com uma atenção especial para as mulheres, através do serviço educativo, oficinas criativas e ateliês de arte e ciência.

“Há poucas mulheres a dar a cara, a se manifestarem como artistas ou como artesãs. Então, no fundo é incentivar para que o ensino da actividade artística seja inclusiva também. Daí termos essa preocupação com as mulheres”, sublinhou Eduardo Malé.

Também serão promovidos ciclos de conferências com pensadores e investigadores da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, da Faculdade de Teatro da Universidade Federal da Bahia e da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

“Teremos uma componente música tradicional, música nacional, e também música internacional. Estamos em contacto com a outra Bienal que vai acontecer mais ou menos na mesma altura que se vai chamar “N’Gola”. Há um ponto de conexão entre as duas bienais  porque afinal de contas estamos todos no mesmo barco cultural, e há que, como eu defendo no programa: “que o projecto seja para unir e não para dividir”, acrescentou o mentor da Bienal.

Haverá também uma barraca gastronómica – “Prova até ao fim do mundo” -, na qual as pessoas terão oportunidade de degustar pratos típicos do Príncipe. “Nós queremos uma barraca em que os sabores e os cheiros da ilha do Príncipe ganhem evidência e estejam presentes durante a Bienal”, disse Eduardo Malé.

A I Bienal Cultural Transatlântica vai ainda homenagear o autor do brasão da República Democrática de São Tomé e Príncipe, o artista plástico Protásio Pina. “Foi proposto que o espaço que acolherá a Bienal seja uma galeria permanente de arte contemporânea.

Nesta Bienal, os artistas vão criar duas peças para que uma possa ficar em exposição permanentemente. Porque uma pessoa que visita o Príncipe, um turista, um cidadão nacional, não tem oportunidade de apreciar (mesmo através de fotografias), esta tradição forte que nós temos. Então, uma galeria de arte permanente vai possibilitar esse visionamento fora do período das festas”, anunciou o artista.

O Governo Regional do Príncipe abraçou este projecto porque acredita que este terá um impacto significativo a nível do país e será também uma mais valia na promoção da ilha no mundo. Para o Secretário de Economia e Cultura da Região Autónoma do Príncipe, Flascoter Oliveira, a Bienal tem o papel de promover o intercâmbio cultural e estimular o circuito artístico.

“A ilha do Príncipe apresenta um contexto cultural muito rico, mas, há uma necessidade urgente desta cultura ser trabalhada, melhorada e divulgada. Penso que o evento será para o Príncipe uma oportunidade para começar a construir os pilares básicos rumo ao desenvolvimento e promoção dessa riqueza cultural dando uma maior visibilidade ao nível do país e no exterior”.

Flascoter Oliveira acredita que a I Bienal Cultural Transatlântica conquistará grande prestígio e despertará interesse de vários artistas nacionais e internacionais. “O evento como será acolhido numa data cultural na ilha, será um palco de acesso a arte e apreciação por parte residentes e centenas de turistas que costumam passar as férias no mês de Agosto”, disse o Secretário de Economia e Cultura da Região Autónoma do Príncipe.

Flascoter Oliveira acrescentou ainda que o governo regional pretende garantir o acesso à arte para todos, promover a produção artística nas camadas juvenis, catalisar a economia regional e abrir caminhos para descobrir uma rede de artistas locais capazes de ganhar uma projecção nacional e prestígio internacional.

Do Príncipe para o Mundo

Se tivesse que definir numa única palavra o valor desta Bienal em construção para o país, Malé escolheria “potência”. Uma Bienal “transatlântica porque tem a ver com o percurso que faz o Auto de Floripes, que é uma tradição cultural que é trazida para São Tomé e Príncipe, mas que tem a sua origem na Península Ibérica, Espanha, Portugal. Espanha leva o Auto de Floripes para Peru, Nicarágua e Chile”, explicou director geral da Bienal.

“A investigadora Alexandra Gouvêa Dumas  fez um estudo muito aprofundado sobre o Auto de Floripes que é celebrado na Ilha do Príncipe e a festa de mouros e cristãos que é celebrada em Prado, na Bahia. Faz uma relação com o que é celebrado na aldeia de Neves em Portugal, na Viana do Castelo, daí a utilização do termo transatlântico”, contou.

Estudo que o influenciou a pensar nessa cultura que é no fundo transatlântica porque atravessa o atlântico de um lado ao outro. E, a ideia também é levar essa primeira Bienal, que é um dos projectos integrados na Bienal – o projecto Voa Floripes Voa -, no fundo baseado até na música do nosso querido músico Gilberto Gil Umbelina, que canta “Voa Papagaio Voa”. Então, achei que era interessante e bonito fazer a Floripes voar nas mãos da cultura e das artes”, acrescentou Eduardo Malé.

O director geral da I Bienal Cultural Transatlântica disse ainda que existe interesse em levar o Auto de Floripes a algumas cidades de França, visto que a obra foi inspirada no livro “Os 12 pares de França” do Imperador Carlos Magno.

Os principais desafios para a organização do evento têm sido o financiamento e questão da dupla insularidade de que padece a ilha do Príncipe.

“Outra preocupação é o preço dos voos na altura das festas que será em Agosto, época alta em que os voos estão completamente inflacionados. Mas é um desafio interessante porque ao tratar-se da primeira Bienal nós queremos que corra bem, e no fundo, fazer uma produção artística cujo lema será “do Príncipe para o Mundo”, disse o artista plástico.

Eduardo Malé acrescentou ainda que o Príncipe tem muito potencial.

“Tanto é que o Príncipe serviu de mote para um ensaio científico. A teoria da relatividade de Einstein foi comprovada lá pelo astrónomo Arthur Eddington, que fez a sua expedição ao Príncipe com ajuda do Observatório Astronómico de Lisboa. É uma coisa que tem tanto peso e que nós de alguma maneira não sabemos tirar partido deste acto tão singular. Então, este também é outro desafio: criar para o mundo”, concluiu o mentor da Bienal.