Entrevistas

Januário Afonso, realizador santomense, fala sobre o cinema em São Tomé e Príncipe

Januário Afonso
O cineasta Januário Afonso nasceu em São Tomé a 30 de Setembro de 1963. Em entrevista ao STP Digital, Januário Afonso, falou-nos um pouco sobre o seu percurso como realizador e a sua perceção sobre o cinema em São Tomé e Príncipe.

“Sem incentivos financeiros, não é possível falar em Cinema” – diz o realizador Januário Afonso

Sobre Januário Afonso

Januário Afonso é formado em Cinema Documental (Portugal-2006; Escócia-2007), e licenciado em Direito (São Tomé – 2016).  Em 2001, realizou a sua primeira longa-metragem Imprudência – Fogo do Apagar da Vida – um filme sobre os efeitos da SIDA.

Nas suas obras, tanto documentários como ficções, é possível notar uma forte preocupação com as questões sociais.

Em 2006, Januário Afonso participou no Festival CinePort em Portugal e, em 2007, juntou-se ao projeto AfricaDoc, que reúne cineastas de países africanos que têm o português ou o francês como língua oficial. Em 2015, venceu o concurso CPLP Audiovisual na categoria FICTV com o seu primeiro projeto de adaptação da obra literária Rosa do Riboque de Albertino Bragança.

Filmografia

– Imprudência, Fogo do Apagar da Vida (2001)

– O Vosso Amor o Meu Sorriso (2006)

– Os que têm sida são iguais aos que não têm (2007)

– Transportador de sonhos (2008)

– Avesso da Vida (2012)

Não sendo o Cinema entendido como prioridade, o mesmo para muitos, simplesmente, não existe”

Segundo Januário Afonso, a lei de mecenato, que à partida, poderia dar um certo impulso ao cinema nacional através dos privados, não funciona. “Essa lei resume-se, praticamente, em letras mortas. E sem que haja incentivos financeiros, não é possível falar em cinema.”

O cineasta ressalta ainda como agravante, o facto de não existir no país um organismo vocacionado para o setor, que se dedique a criação de instrumentos jurídico-legais, e, que mobilize e disponibilize pequenos incentivos financeiros para a incrementação do setor.

“Diante desses factos, permitam-me que eu descreva o cinema em São Tomé e Príncipe, nesse momento, sem pessimismo, se não, pura verdade, como tão simplesmente, moribundo, não obstante alguns esforços de uns ou de outros, em desafiar a si mesmo, levando a cabo, de forma muito tímida, uma ou outra (minúscula) produção.”

Contudo, Januário Afonso acredita que é possível reverter esta situação e fazer com que o cinema nacional seja uma realidade presente e ativa. O que exige persistência e ousadia dos cineastas santomenses. “Acredito que o vento da nossa perseverança nos traga bons tempos”, diz o cineasta.

O realizador considera que o seu percurso tem sido bastante desafiador e, também, pedagógico, na medida em que aprende muito com todas as suas experiências, sejam estas boas ou más.

Januário Afonso aproveitou para agradecer aos seus companheiros: Gerson Soares, Kalu Mendes e Yuri Will, produtores que mergulharam em projetos de amigos e tornaram possível transportar para a tela as suas ideias. Agradeceu também à todas as atrizes e atores que deram vida as suas personagens e aos amigos que sempre o ajudaram.

“Rosa de Riboque” e “João S”

Após ter vencido o Concurso CPLP Audiovisual na categoria FICTV em 2015, com a adaptação da obra literária “Rosa de Riboque” de Albertino Bragança, tudo indicava que este pudesse ser produzido na etapa seguinte. Todavia, o filme não foi produzido por financiamento insuficiente para a produção, segundo a CPLP.

Januário Afonso afirmou ainda que tal como ele, outros realizadores de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e Timor-Leste, também têm os seus projetos de telefilmes à espera para serem produzidos. Porém os realizadores de Angola, Portugal, Brasil e Moçambique, que também participaram no concurso e venceram tiveram o privilégio de produzir. “Mas estou tranquilo e bastante crente que o “Rosa de Riboque” venha a ser produzido, pois estamos a falar de uma comunidade de países, onde, acredito veementemente, que reina o princípio de igualdade”, acrescentou o cineasta.

O seu projeto de documentário “João S” retrata a vida e obra do conceituado músico João Seria, vocalista do conjunto África Negra. “Este filme é um tributo merecido a este grande nome da música santomense.”

Para concretização deste projeto, o realizador adianta que já encetou alguns contactos no intuito de mobilizar financiamento para a sua produção, mas, até então, sem sucesso. Contudo não pretende desistir. Afirma que continua com a mesma força e determinação.

Para os que agora estão a dar os primeiros passos no mundo da sétima arte, o cineasta recomenda: “Procure ser amigo do conhecimento. Estude cinema, pesquise bastante. Porque quanto mais conhecimentos tivermos, melhor estaremos em condições de compreender e lidar com esse mundo.”

O realizador santomense acrescenta ainda que é necessário ter em conta o facto de nos situarmos num país geograficamente isolado e minúsculo. Muitas vezes, essa pequenez tem a tendência de influir sobre o nosso pensamento. Não deixe que isso aconteça.

Januário Afonso diz em jeito de conclusão, que “sendo o cinema um processo que permite a realização de filmes, procure ser um bom realizador.”

Cita ainda Charlie Chaplin: Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação.

Sobre o Autor

Akaisa Borges

Akaisa Borges, é uma jovem versátil de espirito aventureiro, licenciada em Gestão de Empresas pela University of International Business and Economics (UIBE), Beijing, China. Actualmente é assistente de comunicação de marketing na empresa Tela Digital Media Group, apaixonada por arte, cultura e marketing. Ela acredita na lei da atração e está em constante busca por novos desafios.

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