Sociedade

Neusa Sousa: “Queremos tornar o Chá de Beleza Afro um evento de referência internacional”

O maior evento de afro empreendedorismo e networking em Portugal, realizou a sua sexta edição no passado dia 04 de junho, no Fórum Lisboa, subordinado ao tema “Vive o Teu Sucesso”. Para percebermos mais sobre a evolução do Chá de Beleza Afro, desde a sua 1ª edição até o momento, a STP Digital entrevistou Neusa Sousa, Diretora e Fundadora do Projeto.

STP Digital: QUEM É NEUSA SOUSA?

Neusa Sousa: Neusa Sousa é uma jovem santomense, residente em Portugal há 20 anos, que trabalha em comunicação social, é empreendedora e impulsionadora do Chá de Beleza Afro”. Atualmente faço mestrado em “Estudos das Mulheres”, e sou mãe solo.

Gosto de frisar “Mãe Solo” por representar mulheres que tem 90% de responsabilidade na educação dos filhos, por isso podem ser casadas, solteiras, divorciadas ou viúvas, “mãe solo” é isso, então sou uma mãe solo, além de repórter, e ativista por questão de género.

STP Digital: QUANDO E COMO SURGIU A IDEIA DO PROJETO “CHÁ DE BELEZA AFRO”

Neusa Sousa: A ideia do projeto surgiu em 2017. Foi a primeira edição, e estava grávida do Apolo (meu filho). Na altura tinha um projeto denominado “Minha Doce África”, um blog que falava sobre africanidade e promovia as afro empreendedoras que estavam a surgir na altura, entre 2015/2016 começou a surgir o movimento “Black Power”, começou-se a discutir muito o cabelo afro, o afro empreendedorismo ou empreendedorismo negro, as mulheres negras começaram a reunir-se em pequenos eventos, pequenas feiras e tudo mais, e eu fazia cobertura dessas feiras. Ia para esses eventos fazia fotos das empreendedoras que estavam presentes e depois publicava nas minhas redes sociais, essa rede que eu criei especificamente para o projeto e também escrevia artigos sobre aquelas mulheres. Tinha acabado de terminar a licenciatura e estava grávida, não estava a trabalhar, entretanto tinha estagiado na RTP, no programa Bem-vindos, só que quando comecei a estagiar tinha 3 messes de gravidez, então fiquei lá até aos 7 meses e depois vim para casa. Mas como não gosto de ficar em casa sentada, já me sentia inútil. Então decidi criar um evento para dinamizar as afro empreendedoras que estavam a entrar no mercado cá em Portugal.

E ainda na ótica de “Minha Doce África” – O Chá de Beleza Afro surgiu dentro desse projeto. Como eu já tinha alguns contatos e algum conhecimento decidi então juntar tudo num mesmo espaço, onde na altura, a minha ideia de “Afro Empreendedorismo” era falar sobre empreendedorismo, lifestyle, coisas que estavam a entrar no nosso meio na altura. Então o foco inicial do Chá de Beleza Afro era promover o empreendedorismo feminino, e os convidados eram com base nesta ótica. E depois, no dia do evento é que eu percebi que “eu queria falar sobre empreendedorismo, mas as mulheres estão a falar das suas dores”.

As minhas oradoras tinham muito a falar e não era apenas sobre os negócios. Queriam falar do percurso que elas tiveram para chegar aonde elas estavam naquele momento, para chegar ao empreender. E nesta ótica, no ano seguinte, decidi separar o “O Chá de Beleza Afro” da “Minha Doce África”, criar um logotipo, criar uma marca em torno, e mudar um pouco o conceito, que apesar de nós promovermos e salientarmos o afro empreendedorismo, o principal objetivo do projeto é a “Promoção Network”. E foi assim que surgiu o Chá de Beleza Afro. De uma necessidade que eu senti, da união, da conexão, que é das coisas que mais falo no evento, a conexão entre as mulheres, e eu senti a falta de um espaço onde congregasse todas as mulheres que estavam a fazer algo, seja serviços, produtos ou ideias. Para que elas partilhassem as suas experiências e soubessem que existem outras mulheres que fazem as mesmas coisas ou coisas diversas, mas que passam pelas mesmas dores, dúvidas, dificuldades, e que têm um propósito em comum.

STP Digital: O “CHÁ DE BELEZA AFRO” JÁ VAI NA SUA SEXTA EDIÇÃO. QUAL É O BALANÇO QUE FAZ DESDE A PRIMEIRA EDIÇÃO ATÉ AGORA?

Neusa Sousa:  Numa das nossas reuniões, estávamos precisamente a fazer essa reflexão do que foi e do que tem sido o “Chá de Beleza Afro”. O processo para chegarmos aonde estamos hoje e o processo para nos visualizarmos futuramente, e sem dúvida que o “Chá de Beleza Afro” passou por grandes desafios, grande reestruturação. Agora eu consigo materializar melhor a ideia que eu quero dentro do projeto, e com a maturidade, com as lacunas que vamos vendo a cada edição eu vou percebendo qual é a missão e visão que tem que estar entranhadas no projeto.

Atualmente estamos a tentar tornar o projeto CBA, sair um pouco do “Chá de Beleza Afro” como tal e materializarmos enquanto CBA.

E esse processo tem sido grandioso, a prova disso é que a cada edição nós temos tido cada vez mais pessoas porque tem crescido a cada ano, o reconhecimento do evento tem crescido a cada ano, atualmente já é uma referência dentro comunidade negra em Portugal enquanto um evento de afro empreendedorismo e networking feminino em Portugal. E nós estamos com as ideias bem fincadas, já sabemos aquilo que nós queremos e onde queremos chegar. Então tornar o “Chá de Beleza Afro” um evento de referência, depois de seis anos, mostra o quão positivo tem sido a cada edição. 

Claro que quando começamos temos uma ideia que será uma coisa grande, mas não iniciei o projeto com essa projeção do que é hoje e com a projeção do que eu quero que seja daqui em diante. O bom do “Chá de beleza Afro” é que, a cada ano, com a maturidade que eu vou adquirindo, com as pessoas com que eu trabalho, os meus colaboradores, as pessoas que estão na organização que vão dando o seu contributo, vamos acrescentando algumas coisas e melhorando outras coisas. Nunca imaginei que o “Chá de Beleza Afro” ganhasse a dimensão que ganhou e que ainda pretendemos ganhar.

Eu não tinha as ideias bem delineadas na minha cabeça do que eu queria que o “Chá de Beleza Afro” fosse na altura, mas de uma coisa eu tinha certeza: eu queria que fosse um espaço onde unisse as MULHERES NEGRAS. Um espaço onde as mulheres negras pudessem perceber que elas podem ser muito mais do que aquilo que a sociedade diz que elas são. Um espaço onde permitisse as mulheres negras sonharem com mais do que elas têm. E atualmente o “Chá de Beleza Afro” já é um isso, um espaço onde as mulheres podem sonhar, acreditar e unir-se.

STP Digital: … AS EXPECTATIVAS

Neusa Sousa: Um dos objetivos deste ano que, infelizmente, não conseguimos alcançar foi de ter de bater o recorde de participação e receber 600 pessoas no espaço. Contudo, posso dizer que a minha expetativa de tornar o “Chá de Beleza Afro” um modelo de referência de eventos para mulheres negras em Portugal já vem se concretizando. Já é um modelo de referência de eventos para mulheres negras em Portugal e o fato de muitas mulheres quererem pisar o palco e fazer parte do “Chá de Beleza Afro” já mostra a dimensão, a diferença que o evento é para a comunidade.

Só que eu quero sempre mais. Então para além de ser um modelo de referência, tenho um número ainda por alcançar, e ainda pretendo atingir este número no próximo ano. Vou trabalhar, vou melhorar, ver no que falhamos esse ano, para tornar real este objetivo. E depois de conseguir atingir os seiscentos, vamos à mil, dois mil, três mil…  e quem sabe tornarmos uma espécie de um “WEB Summit” feminino para as mulheres negras.

STP Digital: VIVE O TEU SUCESSO” … PORQUÊ A ESCOLHA DESSE TEMA PARA A SEXTA EDIÇÃO?

Neusa Sousa: Todos os anos eu e minha equipe tentamos sempre escolher temas relevantes para comunidade naquele ano específico. E este ano completei 30 anos, um dia antes do evento, e quando vi que estava a completar os 30, senti aquela pressão, aquele frio na barriga que a sociedade nos faz acreditar que quando chegamos a uma determinada idade temos que ter determinadas coisas conquistadas, temos que estar em determinados patamares, temos que ter determinadas conquistas, temos de pensar de determinada forma.

E eu ao chegar aos 30, e me ver tendo coisas ainda por conquistar, nomeadamente: uma casa própria, um casamento que não tenho (não que seja o meu sonho), mas que a sociedade diz que temos que ter aos 30. Eu profissionalmente até estou bem posicionada, tenho conquistado sítios que nem todas as pessoas conseguiram ainda conquistar.

Sou reconhecida, sou valorizada profissionalmente, então porquê que isso não pode ser sucesso? Foi a pergunta que fiz para chegar ao tema. Porquê que sucesso tem que ser algo pautado, algo delineado ou ditado? O quê que é sucesso afinal? Quais são os parâmetros que define uma pessoa bem-sucedida? Foi o que eu questionei. Com base nessas interrogações que fui colocando na minha própria vida enquanto uma “trintona”, eu percebi que sucesso é algo transversal, depende muito de pessoas, de meio onde crescemos, dos nossos objetivos, nossos sonhos. Porque tem mulheres que, sucesso para elas é ter uma carreira bem alavancada, ou para outras é serem casadas, outras abandonam um trabalho que muitos sonham em ter para dedicar àquilo que gostam como de cozinha, moda e tudo mais.

Então não existe um parâmetro para o sucesso e a sociedade tenta nos incutir esse parâmetro, então, é essa a reflexão que eu queria levar para a 6ª edição do Chá de Beleza Afro, mostrar que existe diversas formas para ser uma pessoa de sucesso, e o que é sucesso para mim nunca vai ser sucesso para minha irmã, minhas amigas, ou para as pessoas que me seguem. E quis levar para o palco os diferentes modelos de sucesso, as diferentes realidades e pontos de vista de sucesso. No final de contas, eu quis que elas percebessem que não existe uma definição para o sucesso.

STP Digital: O QUE FOI DIFERENTE NESTA 6ª EDIÇÃO?

Neusa Sousa: Muitas coisas. O espaço foi diferente. Antes as edições eram no espaço Espelho de Água do empresário angolano, Mário Almeida, que nos abriu as portas. Mas depois tivemos que mudar porque o espaço tornou-se pequeno para o número de pessoas que pretendemos alcançar com o evento. Então, em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, conseguimos o espaço para esta 6ª edição, o “Fórum Lisboa”, que alberga 700 pessoas, com todos os equipamentos e o pessoal que lá estiveram a trabalhar. O segundo fator diferenciador foi o facto de termos criado um momento pela primeira vez, que foi premiar uma mulher, e este ano premiamos a Ex Ministra da Justiça em Portugal, Francisca Van Dunem, com o “Prémio Mulher Referência CBA 2022”. Outro fator diferenciador é que este é o primeiro ano que realizamos um Jantar de Networking que aconteceu no passado dia 15 de Junho, no Espaço Espelho d’ Água, no qual esteve presente, não só os oradores desta edição como também os das edições anteriores e algumas empreendedoras que têm feito parte do evento a longo desses anos. Este jantar serviu para fomentar ainda mais o networking, que é um dos nossos objetivos. Apesar de não termos atingido os 600, conseguimos selar 250 pessoas no evento, e em termos de espetáculo, foi completamente diferente dos anos anteriores, foi um espetáculo bastante grandioso, africano, o evento demorou 5 horas e meia e também tivemos um jantar depois do evento.

STP Digital: COMO SURGIU A IDEA DO “PRÉMIO MULHER REFERÊNCIA”? E COMO É QUE FOI FEITA A SELEÇÃO?

Neusa Sousa: A ideia do prémio surgiu numa conversa que estava a ter com a minha amiga Joacine Katar Moreira – Historiadora e Ex-Deputada, na qual contava que queria criar um evento para homenagear as mulheres que tenham se destacado de alguma forma, e foi então que a Joacine sugeriu a criação do prémio dentro do “Chá de Beleza Afro”. Escolhi a Ex-Ministra Francisca Van Dunem porque ela foi a primeira mulher negra no Parlamento português, enquanto Ministra da Justiça, tem feito um trabalho brilhante ao longo dos anos e sem dúvida ela é uma referência para qualquer mulher negra. Ela representa o sonho e que nós podemos chegar lá.

STP Digital: O QUE ESPERAR DAS PROXIMAS EDIÇÕES?

Neusa Sousa:  Eu sonho em organizar uma das edições em São Tomé, e pretendia realizar este sonho ainda este ano. Mas são questões dependentes de parcerias, pessoas disponíveis em injetar algum capital, patrocinadores… E nós ainda não dispomos desse meio financeiro, por isso é que ainda não conseguimos realizar este sonho, mas está para breve, em São Tomé e na Guiné-Bissau ou então só num dos países. Também está previsto realizarmos na Holanda, e estou em conversações para conseguir efetivar, mas um dos objetivos do projeto é sem dúvida levá-lo para todos os países da CPLP e os Países Europeus que tenham comunidade africana acentuada.

O objetivo é tornar o CBA uma marca e dentro desta marca ter várias sub-marcas e ter várias atividades, não apenas o evento anual, mas ter diversos projetos ao longo de todo o ano.  Esperamos também surpreender a cada edição, trazendo mais mulheres de referência, e tornar o evento uma referência para qualquer mulher negra a nível internacional.

STP Digital:  MENSAGEM …

Neusa Sousa: “Mulheres, nunca duvidem dos vossos sonhos. Mesmo diante das adversidades, acreditem sempre em vocês e nunca desistam, podem fazer uma pausa, mas não desistam. E para as Mulheres Negras, em particular: Sim! Podemos ser muito mais do que aquilo que a sociedade diz que somos.”

 

De relembrar que o Chá de Beleza Afro é um evento inclusivo e representativo que nos últimos anos tem promovido o encontro e aproximação entre a comunidade negra e afrodescendentes que vivem e passam por Lisboa. Através da sua dinâmica de relação próxima entre participantes e oradores, esta rede tem permitindo a criação de parcerias e sinergias para a valorização e promoção da africanidade em vários domínios, quebrando estigmas e preconceitos sociais em relação às pessoas e certas profissões, e colocando lado a lado, com todo o mérito e humanismo, exemplos tradicionais e improváveis de sucesso.

Sobre o Autor

Akaisa Borges

Akaisa Borges, é uma jovem versátil de espirito aventureiro, licenciada em Gestão de Empresas pela University of International Business and Economics (UIBE), Beijing, China. Actualmente é assistente de comunicação de marketing na empresa Tela Digital Media Group, apaixonada por arte, cultura e marketing. Ela acredita na lei da atração e está em constante busca por novos desafios.

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