Ao afirmar que “todos nós temos responsabilidade pela situação actual de São Tomé e Príncipe”, o Guedes Medeiros propõe uma visão mais madura da cidadania e da construção nacional, afastando-se da simples prática de apontar culpados e convidando todos os santomenses a assumirem o seu papel na transformação do país.
Durante muito tempo, tornou-se comum atribuir exclusivamente aos governantes e às elites políticas a responsabilidade pelos problemas sociais, económicos e institucionais que afectam o arquipélago. Embora seja evidente que aqueles que ocupam posições de poder possuem maiores deveres e obrigações perante a nação, Guedes Medeiros recorda-nos que a mudança verdadeira exige o envolvimento de todos. A sociedade civil, a juventude, os empresários, os intelectuais, a diáspora e cada cidadão comum têm igualmente um papel decisivo no processo de desenvolvimento.
A proposta de criar uma “onda de solidariedade nacional” representa uma das ideias mais fortes do seu texto. Num país frequentemente marcado por divisões partidárias, conflitos pessoais e rivalidades políticas, a solidariedade nacional surge como uma necessidade urgente. Não se trata apenas de união simbólica, mas de uma mudança concreta de postura: colocar o interesse nacional acima dos interesses particulares. Isso implica escolher, para posições de decisão, pessoas comprometidas com o desenvolvimento e capazes de apresentar resultados reais, e não apenas figuras escolhidas por conveniência política ou alianças pessoais.
Guedes Medeiros também destaca um problema estrutural bastante conhecido: a falta de continuidade nas políticas públicas. Quando afirma que ninguém precisa de fazer um doutoramento para conhecer os maiores desafios do país, ele lembra que os problemas de São Tomé e Príncipe são visíveis e antigos. As dificuldades na saúde, na educação, no emprego, na energia, na agricultura e na dependência económica externa não são novidades. O verdadeiro problema está na ausência de políticas consistentes e duradouras.
Cada novo governo tende a interromper programas anteriores, reiniciando processos e atrasando ainda mais o progresso nacional. Essa instabilidade política impede a construção de soluções sustentáveis. Por isso, a defesa de uma agenda nacional que não pode ser constantemente alterada é extremamente relevante. O país precisa de políticas de Estado e não apenas de políticas de governo. Precisa de um consenso nacional sobre as áreas prioritárias para o desenvolvimento sustentável.
As duas perguntas deixadas por Guedes Medeiros merecem uma reflexão séria e honesta. A primeira diz o seguinte: “Será que conseguimos trabalhar juntos para desenvolver São Tomé e Príncipe?” — desafia directamente a capacidade nacional de cooperação. A segunda diz o seguinte: “Como podemos ultrapassar os problemas pessoais e as intrigas em nome de um bem comum?” — toca numa das maiores fragilidades da cultura política e social santomense.
Muitas vezes, projectos importantes fracassam não por falta de recursos, mas por causa de conflitos de ego, disputas de protagonismo e interesses pessoais que se sobrepõem ao bem colectivo. Ultrapassar essa realidade exige uma transformação profunda da mentalidade nacional, baseada na educação cívica, no fortalecimento institucional, na ética pública e no patriotismo responsável.
O futuro de São Tomé e Príncipe depende menos de discursos e mais da capacidade de construir consensos duradouros. O desenvolvimento não será alcançado apenas com mudanças de governo, mas com mudanças de atitude. É necessário compreender que a nação não pertence a um partido, a um grupo ou a uma geração específica — pertence a todos.
A reflexão de Guedes Medeiros é, acima de tudo, um apelo à consciência colectiva. Ele convida cada santomense a deixar de ser apenas observador e a tornar-se participante activo na construção do país. São Tomé e Príncipe precisa de unidade, visão estratégica e compromisso nacional.

