Cultura Música

Cantora Silvia Barros lança novo EP “Nua”

Silvia Barros

Aos 25 anos, a cantora santomense Silvia Barros lançou em Janeiro deste ano o seu segundo EP intitulado “Nua”. Nas cinco faixas que compõem “Nua”, a artista inebria-nos com a sua voz poderosa, que revela uma mulher empoderada e de talento musical natural.

A cantora nasceu em 1996 na ilha de São Tomé, onde viveu a sua infância. Mudou-se para Portugal aos 5 anos onde cresceu a nutrir paixão pela ginástica, dança, natação e ballet. Todavia foi a música que a conquistou e hoje é para ela um refúgio e liberdade.

Em conversa com o STP Digital, Silvia lembra com saudade dos pequenos detalhes da zona onde cresceu, Água-Bôbo, e da sua terra natal:

“Tinha barraquinhas de negócios dos vizinhos que vendiam iogurte em copinhos, e açucrinha (o meu favorito). Não lembro de muito, mas do pouco que me lembro carrego com carinho”.

Silvia Barros
Imagem: Reprodução FB

 

Silvia cresceu e viveu a sua infância apenas com o pai, e logo depois partiu para Portugal. “Foi uma “viagem longa a cuidado de uma hospedeira da companhia”, recorda a cantora.

A mudança de realidade, de comida, e de pessoas, causou um choque cultural na artista que só descobriu aos 23 anos que tudo isso afetou-lhe psicologicamente e emocionalmente.

Como um grito de desespero, as letras que a Silvia compõe vêm suprir as suas necessidades de desabafar, e dá a liberdade que não tivera na infância.

Embora hoje não se imagine a viver sem a música, Sílvia conta que na infância o seu sonho era ser médica.

Silvia Barros
Imagem: Reprodução FB

 

“Em São Tomé, cresci numa casa com muita música e muita vida, mas não cantava, nem sonhava em ser artista, queria ser médica”.

A paixão pela música e pela arte de compor surgiu aos 8 anos, quando Silvia entrou em contacto com o coro da igreja que o seu pai frequentava. Silvia revela ainda que a primeira música que compôs foi “Nick Rush“.

“Era sobre um rapaz que eu secretamente gostava que tinha olhos azuis. Honestamente, acho que foi a pedido dele, uma espécie de desafio pra mim, mas não me lembro bem”.

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Imagem: Reprodução FB

 

A sua carreira musical começou em 2013 com a música “Dói“. Contudo, Silvia disse que foram anos de trabalho perdidos.

“Fui chamada por 2 produtores para fazer um álbum grátis, e quando chegou a hora de dar as músicas foi uma luta constante porque um dos produtores não queria dar as músicas. Deram 1 música por ano, e foi nesse processo de insistir pelas músicas que o produtor admitiu que tinha perdido as músicas.”

A falta de honestidade e transparência das pessoas atrasou o progresso musical da cantora.

Silvia Barros
Imagem: Reprodução FB

 

“Posso dizer que 7 anos da minha carreira, foram quase 3 anos perdidos por causa disso, mas serviram-me de aprendizado.”

Superando as dificuldades Silvia Barros, lançou em 2019 o seu primeiro EP “Nome”. E com o seu mais novo lançamento que batizou de “Nua”, Silvia brinda-nos com cinco temas originais: So wet, Sa Foda, Perigoso, Avental, e Set Me Free” que já conta com mais de 1.871 ouvintes por mês no Spotify. São nas letras que compõe, que Silvia Barros exprime os seus sentimentos.

O tema “Sa Foda”, é um grito de liberdade para a cantora. Surgiu numa fase difícil da sua vida. Silvia estava doente, mas percebeu que tinha de reerguer-se física e psicologicamente e continuar a viver.

Silvia Barros
Imagem: Reprodução FB

 

“Foi em 2021, meados de outubro, depois de ter sido internada com uma doença autoimune que se formou devido ao stress e ao desgosto. Estava a tomar 6 comprimidos que diminuíam, mas não tiravam as dores. Lembro-me de estar na sala, em silêncio e com dores. E estava farta do peso da vida em si e com a falta de condições básicas que o nosso governo não nos dá.”

Embora já tenha feito muitas composições e considera todas elas especiais, Silvia tem a “Lost My mind” e “Sa Foda” como as que exigiram um maior nível de vulnerabilidade.

No início deste mês, a cantora fez o seu primeiro concerto onde cantou quase todas as suas músicas no Jardim Gulbenkian na capital portuguesa. Um concerto que se realizou no âmbito da exposição Europa Oxalá, que conta com uma mostra da Cultura Afro-Europeia onde a música tem um papel fundamental nesta narrativa que combate a ausência de Corpos Negros nos lugares de fala.

“Não tenho palavras de como foi especial para mim o meu 1º concerto. Sonhei muito com esse momento, mas foi melhor do que imaginei”, afirma.

Silvia Barros
Imagem: Reprodução FB

 

Apesar de ter vivido a maior parte da sua vida na Europa, a cantora santomense sente orgulho das suas raízes: “Orgulhosa de ter vindo do continente mãe, da África.“

“No vídeo de Sol eu pintei a pele de dourado e pus cristais no corpo porque quero homenagear a cor da minha pele, toda a melanina que me veste, e quero homenagear o pano africano em todo o meu projeto porque é único e é nosso”, Silvia acrescenta.

A última vez que esteve em São Tomé, Silvia tinha 11 anos e se a saúde permitir a cantora pretende regressar a sua terra natal ainda este ano.

Sobre o Autor

Jaquilza Gomes

Jaquilza Gomes é licenciada em Língua Portuguesa pela Universidade de São Tomé e Príncipe (FCT/USTP). Participou na criação da obra conjunta “Ilhas de Palavras”. Nas horas livres dedica-se ao desenho, escrita, poesia, contos e reciclagem.

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