Cultura

Eduardo Malé apresenta “African Fantasy Revolution”

Eduardo Malé

O concept bar Hot Spot inaugurou ontem a Exposição Solidária “African Fantasy Revolution”, que tem a assinatura do conceituado e multifacetado artista santomense, Eduardo Malé (49 anos). O evento que alia arte e solidariedade teve a curadoria de Marty Pereira, poeta e também gerente do Hot Spot. E foi animado pela guitarra e vozes José Marques e Melissa Pina, finalistas do talent show Vozes d’Obô.

 

“A ideia basicamente é ter sempre artistas santomenses a exibir as suas obras aqui e com isso nós conseguirmos leiloar sempre peças e reverter parte do valor para causas sociais. A causa que a African Fantasy Revolution vai apoiar um amigo com cancro, que está em fase terminal. Todos os fundos que nós angariarmos serão destinados a garantir mais conforto para ele. Então, a ideia é leiloarmos certas peças, sendo que uma parte é para o artista e a outra vai para a causa que estamos a apoiar.” – disse Marty Pereira.

 

Malé contou ao STP Digital que o conceito da exposição está relacionado com a ideia de ilusão, da beleza que África tem.

 

“Eu, de alguma maneira captei esses momentos e transferi para as minhas pinturas. Estes momentos de ilusão, de vontade de transformação, de mudança, para partilhar com o público. Aquilo tem várias ideias, uma delas tem a ver com o bairro onde eu resido nesse momento, Praia Gambôa. Onde eu vejo sempre, todos os dias, o quotidiano dos jovens, dos pescadores, das mulheres, dos idosos.” – disse Malé.

Eduardo Malé
José Marques e Melissa Pina

Para o artista, é interessante ver dentro daquele universo, a forma tão diferenciada como eles olham para o mundo.

“Às vezes com alguma beleza, às vezes com alguma tristeza. E, foi isso que eu tentei captar. Aí tem uma série de trabalhos que falam da beleza do nascimento de uma criança. Tem uma mãe grávida. Depois tem uma mãe com o filho nas mãos. Por exemplo, naquele quadro que temos em frente temos um casal em cima. Depois temos uma senhora com as pernas abertas. Eu recriei isto de um trabalho do Gustave Courbet, pintor francês, que liderou o movimento do Realismo.” -acrescentou o artista.

Malé fala também em quebrar o ciclo vicioso. “Este cruzamento entre duas pessoas, que depois resulta numa gravidez, que por sua vez, dá origem a outros ciclos que se repetem como se fosse um ciclo vicioso que não termina.

Eduardo Malé

Enquanto artista, Malé quer contribuir para a mudança. Daí a ideia de revolução (“revolution”).

A exposição tem diferentes sequências, que abordam diversos temas sociais e culturais de São Tomé e Príncipe.

“Neste conjunto de trabalhos tenho uma série de manifestações culturais que têm a ver com o nosso universo cultural: puíta, socopé, dêxa, kiná, djambi. Tudo isso tem a ver com a beleza que nós temos e que nós podemos oferecer. Coisas únicas. Depois temos também o Auto de Floripes, que existe noutras partes do mundo. Mas temos as nossas especificidades, e é isso que eu quero ressaltar nesta beleza, neste conceito de African Fantasy Revolution. Temos coisas tão bonitas, que podemos oferecer.” – explicou o artista.

Outro conceito muito importante para Malé é “Conta-me coisas com pés e cabeça”.

“Coisas que façam sentido. Então, a ideia dos pés tem muito a ver com a ideia da emigração. A tendência, hoje, dos africanos é emigrar, ir à busca de melhores condições de vida. Mas tem de ser com pés e cabeça. Tem de ser com sentido de ir e não esquecer.” – afirmou Malé.

Eduardo Malé

“Não te esqueças de mim” é outra ideia que está dentro do African Fantasy Revolution. Segundo Malé, não nos podemos esquecer que estamos num lugar um esquecido pelo mundo.

“É contraditório ao mesmo tempo. Porque nós estamos no centro do mundo.  Se olharmos para o mundo, o único sítio onde o Greenwich e a linha do Equador se cruzam é aqui nas ilhas. No centro do mundo, mas estamos esquecidos.” – disse o artista.

Malé disse ainda que African Fantasy Revolution é um sonho, uma ilusão que ele próprio tem de com o seu trabalho, com a sua contribuição e a de outros artistas contribuir para a mudança. “Como é o caso do René (Tavares), que também está a fazer um trabalho magnífico, que está a fazer bastante sucesso.” – concluiu.

Algumas peças já foram arrematas no leilão, mas a exposição está patente até ao fim de Fevereiro.

Sobre o Autor

Katya Aragão

Licenciada em Ciências da Comunicação e Cultura – Comunicação e Jornalismo pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (Lisboa, Portugal), atualmente é jornalista de profissão, curiosa por natureza e produtora por paixão. Gosta de aprender sobre tudo o que a rodeia, é uma leitora-em-série, acredita no poder dos sonhos e das grandes ideias. É editora chefe do STPDigital.net, organizadora do TEDxSãoTomé, activista na ONG Galo Cantá, da qual foi fundadora e presidente.

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